Os dois lados do seguro pecuário
- 2/ março / 2026
Como seguradoras e produtores enxergam o mesmo mercado em que atuam

Karen Matieli
De um lado, produtores que precisam proteger seus rebanhos, sua produção de corte e leite e, principalmente, o fluxo de caixa da fazenda. Do outro, seguradoras com seus clausulados, critérios técnicos e modelos atuariais para enquadrar e precificar riscos. Entre esses dois polos, que parecem opostos, mas são interdependentes, estão mais de 230 milhões de cabeças no Brasil, representando um patrimônio estimado em cerca de R$ 600 bilhões.
Apesar desse volume expressivo, levantamento da CNseg e da FenSeg aponta que apenas 1% desse valor corresponde ao prêmio médio arrecadado em 2025. A conta é simples e incômoda: a penetração do seguro pecuário ainda é mínima diante do tamanho da atividade.
Esse dado expõe uma fragilidade estrutural. O pecuarista convive com riscos sanitários, climáticos e de mercado que podem comprometer anos de trabalho. Ainda assim, a contratação de seguro não é prática disseminada. Parte disso se explica por custo, parte por desconhecimento e parte por desconfiança.
Para o produtor, seguro não é promessa de retorno financeiro automático. É instrumento de mitigação de risco. A apólice não existe para gerar lucro, mas para evitar colapso patrimonial diante de eventos severos. Essa diferença de mentalidade precisa ser clara. E junto dela, a consciência das obrigações contratuais.
O segurado não é mero pagador de prêmio. Ele deve fornecer informações verdadeiras, manter manejo e sanidade adequados, cumprir protocolos de vacinação, respeitar prazos, comunicar sinistros imediatamente e cooperar com perícias. Quando há subvenção pública envolvida, precisa entender que eventual não empenho pode exigir pagamento integral, conforme previsto em contrato. Descumprir essas obrigações pode resultar na perda do direito à indenização. Não é detalhe jurídico, é fundamento contratual.
Do lado das seguradoras, a responsabilidade também vai além de pagar sinistros. É dever estruturar produtos tecnicamente sólidos, com critérios claros de aceitação e exclusões compreensíveis. Clausulados excessivamente complexos afastam o produtor. Comunicação imprecisa gera conflito. O setor precisa evoluir em didatismo e em presença técnica no campo.
Há ainda um desafio maior: a construção de confiança. O seguro pecuário não pode ser visto como antagonista do produtor, mas como parceiro de estabilidade. Para isso, é necessário equilíbrio entre rigor técnico e clareza comercial.
O mercado pecuário brasileiro é robusto, competitivo e exposto. Ignorar instrumentos de gestão de risco é uma aposta perigosa. Ao mesmo tempo, vender proteção sem explicar limites é igualmente temerário.
O seguro pecuário só amadurece quando ambos os lados compreendem que contrato não é formalidade burocrática. É pacto de responsabilidade compartilhada. Em um setor que movimenta centenas de bilhões e sustenta cadeias inteiras, profissionalizar essa relação deixou de ser opção. É questão de sobrevivência econômica.