6 de May de 2026
Colunista - Karen Matieli

ExpoZebu 2026 expõe força da genética bovina e o descompasso do seguro pecuário no Brasil

  • 6/ maio / 2026

Maior vitrine mundial do Zebu reforça ganhos de produtividade e valorização dos rebanhos, enquanto a proteção securitária ainda não acompanha a relevância econômica do setor

Karen Matieli

A 91ª edição da ExpoZebu, realizada em Uberaba-MG, confirma o protagonismo da pecuária brasileira no cenário global. Mais do que uma feira, o evento consolidou-se como o principal palco da genética zebuína no mundo, reunindo criadores, estrangeiros, investidores e empresas em torno de um ativo cada vez mais valorizado: o melhoramento genético bovino.

Com expectativa de repetir ou superar números recentes, a ExpoZebu movimenta centenas de milhões de reais em negócios, atrai milhares de visitantes e reforça o papel do Brasil como referência internacional em melhoramento genético. Não é apenas visibilidade. É mercado, escala e direcionamento de futuro.

Esse avanço tem base sólida. O Brasil possui o maior rebanho comercial bovino do mundo, com mais de 230 milhões de cabeças, e lidera as exportações globais de carne bovina, com presença em mais de 150 países e receitas que superam US$ 10 bilhões ao ano. Esse desempenho está diretamente ligado ao investimento consistente em genética.

A lógica é objetiva. Genética não é mais diferencial, é estratégia de produtividade. Animais superiores entregam melhor conversão alimentar, ganho de peso mais eficiente, maior produção de leite e carne e redução de perdas. Em um cenário de margens pressionadas e clima cada vez mais imprevisível, produzir mais com menos deixou de ser vantagem para se tornar condição de sobrevivência.

A ExpoZebu traduz esse movimento com clareza. Os leilões realizados durante a feira evidenciam o nível de valorização dos animais, especialmente os de alto padrão genético. Exemplares de elite atingem cifras milionárias, refletindo anos de seleção, tecnologia embarcada e gestão profissional da atividade.

Mas é justamente nesse ponto que surge o principal alerta.

Enquanto a pecuária evolui em valor, tecnologia e eficiência, a gestão de risco ainda não acompanha essa transformação na mesma velocidade. E os dados mais recentes deixam isso evidente.

Segundo a CNseg, o seguro rural arrecadou R$ 12,9 bilhões em 2025, mas registrou queda de 8,8% no período, interrompendo o ritmo de expansão dos últimos anos. Mais do que isso, a área segurada no país sofreu uma retração expressiva, saindo de 13,7 milhões de hectares em 2021 para apenas 3,2 milhões de hectares em 2025. Na prática, isso significa menos proteção em um ambiente de risco crescente.

Quando o recorte é a pecuária, o descompasso é ainda mais evidente.

O seguro pecuário apresentou crescimento relevante e atingiu cerca de R$ 187,6 milhões em arrecadação até outubro de 2025, com alta de 24% em relação ao ano anterior e expansão acumulada superior a 260% desde 2021. Os números mostram evolução, mas também escancaram o tamanho do gap.

Em um país com o maior rebanho comercial do mundo, a proteção ainda ocupa um espaço marginal dentro da estratégia do produtor.

E o risco não é abstrato. Mortalidade, acidentes, doenças, falhas operacionais, transporte e eventos climáticos impactam diretamente a atividade. No caso de animais de alto valor genético, uma única perda pode representar prejuízos significativos, comprometendo ciclos produtivos inteiros.

A ExpoZebu, ao mesmo tempo em que celebra o avanço da genética, evidencia essa contradição. O setor evoluiu em eficiência, tecnologia e valor, mas ainda carrega uma lacuna importante na proteção dos seus ativos.

O seguro pecuário precisa deixar de ser percebido como custo e passar a ser tratado como ferramenta de gestão. Não apenas para indenizar perdas, mas para garantir continuidade, estabilidade financeira e acesso a crédito.

O Brasil já construiu uma pecuária altamente competitiva, baseada em ciência, seleção genética e escala. A ExpoZebu é a prova concreta disso. O próximo passo é claro.

A proteção precisa evoluir na mesma velocidade que o patrimônio.

Enquanto isso não acontecer, o setor seguirá crescendo, valorizando seus ativos e assumindo riscos que poderiam, e deveriam estar muito melhor administrados.