18 de August de 2026
Colunista - Karen Matieli

Agroleite 2026 reforça a evolução da pecuária e amplia o debate sobre gestão de riscos

  • 18/ agosto / 2026

Com tecnologia, genética e eficiência no centro das discussões, o evento evidencia a profissionalização da cadeia do leite e a necessidade de avançar também na proteção dos ativos e dos investimentos da atividade pecuária leiteira

Karen Matieli

Participar do Agroleite é acompanhar de perto os movimentos que estão transformando a pecuária brasileira. Realizado entre 3 e 7 de agosto, em Castro, no Paraná, o evento consolidou mais uma vez sua posição como uma das principais vitrines de tecnologia, genética, inovação e negócios da cadeia do leite na América Latina. A edição de 2026 reuniu cerca de 400 empresas, aproximadamente 600 animais e uma expectativa de 170 mil visitantes, com projeção de R$ 500 milhões em negócios. Em 2025, os números já haviam demonstrado a dimensão alcançada pelo evento, com 370 empresas expositoras, 163 mil visitantes e R$ 969 milhões movimentados.

Esses números são relevantes porque mostram que o Agroleite deixou de ser apenas uma exposição para se consolidar como um ambiente de negócios, conhecimento e conexão entre os diferentes elos da cadeia. A presença de produtores, cooperativas, empresas de tecnologia, indústria, instituições financeiras, especialistas e fornecedores permite observar, na prática, como a pecuária leiteira vem incorporando novas ferramentas para elevar produtividade, eficiência e rentabilidade. É uma cadeia que está investindo em genética, nutrição, reprodução, sanidade, conforto animal, automação e gestão de dados para produzir mais e melhor.

O desempenho recente do setor ajuda a dimensionar esse movimento. O Brasil encerrou 2025 com recorde na aquisição de leite cru pelos laticínios sob inspeção sanitária, alcançando 27,51 bilhões de litros, volume 8,5% superior ao registrado em 2024, segundo o IBGE. O resultado supera inclusive o recorde anterior, de 25,64 bilhões de litros, registrado em 2020.

A evolução da atividade também está relacionada à crescente profissionalização das propriedades. A pecuária moderna exige decisões cada vez mais técnicas e integradas. O produtor precisa avaliar produtividade, custos, qualidade genética, eficiência alimentar, sanidade, mercado e capacidade de investimento. Nesse ambiente, gestão de riscos não pode ser tratada como uma etapa posterior ou como uma preocupação restrita aos momentos de crise. Ela precisa fazer parte do planejamento da operação.

É justamente nesse ponto que ainda vejo espaço importante para evolução do seguro pecuário.

A cadeia está aumentando seus investimentos e elevando o valor dos ativos que estão dentro das propriedades, mas a cultura de proteção ainda não avançou na mesma proporção.Existe investimento acumulado em genética, reprodução, alimentação, sanidade, infraestrutura, tecnologia e mão de obra. Quando ocorre uma perda, portanto, o impacto não está limitado ao preço do animal. Ele pode atingir toda a estratégia produtiva e financeira da propriedade.

Esse raciocínio se torna ainda mais importante quando falamos de animais geneticamente superiores ou de rebanhos especializados. O produtor investe anos para construir um patrimônio produtivo e genético, mas muitas vezes ainda não incorpora o seguro como uma ferramenta de gestão desse patrimônio. O seguro pecuário não elimina os riscos da atividade e tampouco substitui as boas práticas de manejo. O seu papel é reduzir o impacto financeiro de eventos que podem comprometer a continuidade do negócio.

A própria dimensão econômica da pecuária brasileira mostra por que esse debate precisa ganhar espaço. Em 2025, o Valor Bruto da Produção da pecuária alcançou R$ 478,08 bilhões, crescimento de 12,3%. Dentro desse resultado, a bovinocultura respondeu por R$ 204,1 bilhões e a produção de leite por R$ 71,5 bilhões.

Estamos falando de uma atividade que movimenta centenas de bilhões de reais e que vem se tornando cada vez mais sofisticada. Por isso, não podemos continuar tratando gestão de risco como um assunto periférico. Quanto maior o investimento necessário para produzir, maior também é a necessidade de criar mecanismos capazes de proteger esse capital.

O Agroleite é importante justamente porque permite enxergar essa transformação de forma muito concreta. Nas propriedades visitadas durante a Rota do Leite, por exemplo, os participantes puderam conhecer diferentes sistemas de produção e observar como tecnologia, gestão e eficiência são aplicadas no dia a dia. Essa aproximação com a realidade do produtor é fundamental para que as soluções oferecidas pelo mercado façam sentido dentro da operação.

Para o mercado de seguros, estar em eventos como o Agroleite também significa entender melhor as necessidades de quem está produzindo. O seguro pecuário precisa acompanhar a realidade da fazenda e evoluir junto com ela. Não se trata apenas de oferecer uma cobertura, mas de compreender o patrimônio que está sendo construído, os riscos aos quais ele está exposto e o impacto financeiro que uma eventual perda pode provocar.

A pecuária brasileira já demonstrou que sabe investir em produtividade. A evolução genética, a adoção de tecnologia e o avanço da gestão mostram uma atividade cada vez mais profissional e competitiva. O próximo passo precisa ser ampliar essa mesma maturidade na gestão dos riscos.

É nesse contexto que o Agroleite se torna tão relevante para o setor. Mais do que apresentar tecnologias e promover negócios, o evento mostra para onde a pecuária está caminhando. E, para quem atua com seguro pecuário, estar presente é uma oportunidade de acompanhar essa transformação, ouvir o produtor e participar da construção de soluções que estejam à altura do patrimônio e da importância econômica da atividade.

A pecuária está evoluindo. A gestão de riscos também precisa evoluir.