Ciclo do carbono na pecuária: entre o metano, o solo e a nova agenda do risco rural
- 12/ maio / 2026
A pecuária brasileira não pode mais ser analisada apenas pelo animal que emite, mas pelo sistema produtivo que podem degradar ou regenerar o território onde esse animal está inserido

Elaine Teixeira
Poucos temas são tão mal compreendidos no debate climático quanto o ciclo do carbono na pecuária. De um lado, há a crítica correta às emissões de metano entérico dos ruminantes e ao impacto da mudança de uso da terra. De outro, há a simplificação perigosa de tratar todo sistema pecuário como se tivesse o mesmo balanço ambiental. A pergunta que precisamos enfrentar não é se a pecuária participa do problema climático. Ela participa. A pergunta mais estratégica é em quais condições ela pode deixar de ser vetor de degradação para se tornar parte de uma estratégia de mitigação, adaptação e segurança produtiva.
O relatório da FAO sobre emissões da pecuária estima que, em 2015, os sistemas agroalimentares pecuários responderam por cerca de 6,2 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente ao ano, o que corresponde a aproximadamente 12% das emissões antropogênicas globais de gases de efeito estufa e cerca de 40% das emissões dos sistemas agroalimentares. O mesmo documento projeta aumento de 20% na demanda por produtos de origem animal até 2050, o que torna insuficiente qualquer abordagem baseada apenas na redução abstrata da produção. A questão concreta, especialmente em países tropicais como o Brasil, é produzir melhor, emitir menos por unidade de produto, recuperar áreas degradadas e impedir que a expansão da produção pressione novas áreas de vegetação nativa.
O carbono circula na pecuária por diferentes caminhos. Parte entra no sistema pela fotossíntese das plantas forrageiras, que capturam CO₂ da atmosfera e transformam esse carbono em raízes, folhas, colmos e matéria orgânica. Parte retorna à atmosfera pela respiração das plantas, dos animais e dos microrganismos do solo. Outra fração permanece no solo, principalmente quando há boa cobertura vegetal, raízes vigorosas, manejo adequado da pastagem e ausência de erosão severa. Há ainda as emissões de metano, produzidas no processo digestivo dos ruminantes, e de óxido nitroso, associadas ao manejo de dejetos, fertilização nitrogenada e processos microbiológicos no solo. Portanto, o balanço climático de uma fazenda pecuária não depende apenas do número de animais, mas da eficiência produtiva, da qualidade da dieta, da idade ao abate, do manejo das pastagens, da fertilidade do solo, da presença de árvores e da história de uso da terra.
É nesse ponto que a recuperação de pastagens degradadas se torna central. O estudo conduzido pelo GPP/Esalq em parceria com o PNUMA, no âmbito do TEEBAgriFood, aponta que o Brasil possui 102,8 milhões de hectares de pastagens com degradação intermediária ou severa, e que a meta do Plano ABC+ é recuperar 30 milhões de hectares até 2030. Essa agenda não é periférica. Pasto degradado é sinônimo de baixa produção de forragem, solo exposto, menor infiltração de água, maior vulnerabilidade à seca e pior desempenho animal. Em termos climáticos, é também um sistema com menor capacidade de incorporar carbono ao solo e maior emissão por quilo de carne ou leite produzido. Recuperar pastagens, portanto, não é apenas uma ação agronômica; é uma estratégia climática, econômica e securitária.
O Plano ABC+ fornece uma base pública importante para essa transição ao organizar tecnologias de adaptação e baixa emissão de carbono na agropecuária brasileira entre 2020 e 2030. Entre elas estão recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta, sistemas agroflorestais, plantio direto, bioinsumos, manejo de resíduos da produção animal e terminação intensiva. A própria formulação do plano reconhece que mitigação e adaptação precisam caminhar juntas. Não basta reduzir emissões em planilhas; é necessário aumentar a resiliência dos sistemas produtivos diante de estiagens, ondas de calor, degradação dos solos e instabilidade econômica.
A ciência brasileira já oferece exemplos concretos de como esse caminho pode ser construído. A certificação Carne Baixo Carbono, desenvolvida pela Embrapa em parceria com o setor produtivo, estabelece critérios técnicos e indicadores para propriedades que adotam sistemas de intensificação sustentável, como integração lavoura-pecuária, pastagens de alto desempenho, recuperação de pastagens e manejo eficiente do solo e da água. Segundo a divulgação oficial, essas práticas favorecem maior captura de carbono no solo e na vegetação, reduzem o impacto climático da atividade e tornam o uso da terra mais eficiente, com menor pressão sobre novas áreas de vegetação nativa. É uma sinalização relevante: o mercado começa a exigir não apenas declaração de intenção, mas rastreabilidade, mensuração e auditabilidade.
Para o seguro rural, essa discussão é decisiva. Sistemas pecuários com solo degradado, baixa reserva forrageira, ausência de sombreamento, má distribuição de água e baixa capacidade de suporte apresentam maior exposição ao risco climático. Já propriedades com pastagens recuperadas, manejo rotacionado, árvores no sistema, diversificação forrageira, reserva alimentar e controle sanitário tendem a responder melhor a veranicos, ondas de calor e oscilações de produtividade. Se o risco muda com o manejo, a precificação do risco também deveria evoluir. O seguro rural do futuro não pode enxergar apenas localização, histórico de sinistros e valor segurado. Ele precisará incorporar indicadores de resiliência produtiva, qualidade do solo, cobertura vegetal, disponibilidade hídrica e práticas de baixa emissão.
O ciclo do carbono na pecuária, portanto, não deve ser tratado como argumento defensivo nem como peça de marketing ambiental. Ele precisa ser compreendido como uma ferramenta de diagnóstico e planejamento. A pecuária brasileira terá mais credibilidade quando conseguir demonstrar, propriedade por propriedade e território por território, que reduz emissões, aumenta produtividade, conserva solo e água, protege o bem-estar animal e diminui risco climático. O caminho não está em negar o metano, mas em qualificar o sistema que o produz. A pecuária de baixo carbono será aquela capaz de transformar pastagens em ativos produtivos e ambientais, convertendo solo degradado em solo vivo, vulnerabilidade em resiliência e risco climático em oportunidade concreta de reconversão produtiva.