23 de June de 2026
Exclusivo

Super El Niño deve elevar rigor técnico e pressionar precificação do seguro rural no Brasil

  • 23/ junho / 2026

Projeções para 2026 e 2027 indicam aumento da volatilidade climática e aceleram uso de dados, inteligência artificial e modelos mais seletivos de subscrição no setor

Por Tany Souza e Carlos Pacheco

O mercado de seguro rural no Brasil já se movimenta diante da possibilidade de um Super El Niño entre 2026 e 2027. A leitura predominante entre seguradoras e especialistas é de que o cenário deve intensificar a volatilidade climática, pressionar a precificação e acelerar a adoção de modelos mais sofisticados de análise de risco.

O movimento é interpretado pelo setor como uma etapa adicional na transição de um modelo baseado em histórico climático para um modelo orientado por dados, simulações e leitura hiperlocal de risco.

Para Karina Andrade, Vice-presidente de Riscos Corporativos da Acrisure Brasil, o principal desafio está na assimetria dos impactos climáticos entre regiões e culturas. “Pensando em um cenário com alta probabilidade de ocorrência de um Super El Niño, as regiões potencialmente mais afetadas são o Sul, principalmente em razão do excesso de chuvas, e o Norte e Nordeste, devido a secas prolongadas. Ambos os cenários impactam diversos tipos de culturas e podem afetar diferentes setores da economia, não se limitando ao agronegócio”.

Segundo ela, o mercado já responde com maior rigor técnico na aceitação de riscos. “De forma objetiva, observamos um mercado segurador mais criterioso no que diz respeito à oferta de limites, à subscrição e à aceitação de riscos, além de mais exigente em relação às informações necessárias para precificação. Esse movimento reforça a importância do gerenciamento de riscos e do uso cada vez maior de dados para apoiar a tomada de decisão”.

A preparação da Bradesco Seguros para eventos climáticos extremos, envolve uma combinação de tecnologia, monitoramento de riscos, planejamento operacional e orientação contínua aos clientes. “Nos últimos anos, a Companhia ampliou o investimento em Inteligência Artificial, big data, geoprocessamento e modelagem preditiva para integrar informações meteorológicas, dados territoriais e históricos de sinistros”, conta Leonardo Duque, Gerente Sênior de Agro da Bradesco Seguros.

No segmento agropecuário, “a atenção está especialmente voltada para os efeitos das secas e demais eventos que afetam a produtividade e a estabilidade econômica das regiões produtoras”, completa.

Paramétricos avançam como resposta à velocidade dos eventos

A executiva destaca que a evolução dos modelos de risco já está em curso e altera a forma como o mercado precifica carteiras rurais. “Os prêmios de seguro tendem a apresentar maior volatilidade, e os modelos de precificação e subscrição estão cada vez mais sofisticados. Com o uso de Inteligência Artificial e Big Data, é possível realizar simulações contínuas de cenários catastróficos, reavaliando as exposições que as seguradoras podem reter por região ou por cultura agrícola”.

Os seguros paramétricos aparecem como uma das soluções em expansão para dar maior velocidade à resposta em eventos climáticos extremos. O Superintendente de Agronegócios da Sancor Seguros, Martín Pacheco, explica o direcionamento do produto no mercado. “A Sancor Seguros busca ampliar seu portfólio com produtos mais aderentes às necessidades dos produtores rurais e das entidades que financiam a atividade agropecuária, em um contexto em que os riscos climáticos se tornam progressivamente mais complexos”.

Ele também destaca uma limitação estrutural do modelo. “Nesse sentido, os seguros paramétricos mostram-se mais adequados para atender entidades que agregam produtores, como cooperativas, revendas e bancos, do que o produtor individualmente. O chamado erro de base, risco estrutural desse modelo, em que o índice de referência pode não refletir a perda real sofrida pelo segurado, torna o seguro paramétrico inadequado para a maioria dos casos individuais”, afirmou o superintendente de Agronegócios da Sancor Seguros.

Zarc segue como base, mas já atua em conjunto com novas camadas de dados

Mesmo com a evolução tecnológica, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) segue como referência central no mercado de seguro rural. “O Zarc continua sendo a principal referência técnica e o ponto de partida indispensável para o mercado de seguros no Brasil. Ele define, de forma científica, as melhores datas de plantio, tipos de solo e cultivares, funcionando como um importante balizador técnico”, disse Karina Andrade.

Segundo ela, o modelo já é complementado por outras fontes de dados. “No entanto, o gerenciamento moderno de riscos vai além do Zarc. Embora ele continue sendo a principal referência de conformidade jurídica e técnica, hoje é complementado por tecnologias como sensores, imagens de satélite e telemetria de maquinário, capazes de identificar momentos como semeadura e colheita”.

Na mesma linha, Martín Pacheco reforça a evolução do uso de dados. “O Zarc continua sendo uma das ferramentas mais importantes para o seguro rural brasileiro. Ele trouxe racionalidade técnica para a gestão de risco agrícola e continua sendo uma referência fundamental para o mercado. O que mudou foi a quantidade de informação disponível para tomada de decisão”.

Já o diretor de seguro rural da MAPFRE, Fábio Damasceno, destaca que os impactos do fenômeno não serão homogêneos no país. “Estamos acompanhando esse cenário com bastante atenção porque os efeitos não acontecem de forma uniforme no país. Quando falamos em um evento dessa magnitude, estamos falando de impactos diferentes dependendo da região, da cultura e até do momento do ciclo produtivo”.

No caso das culturas anuais, uma alteração importante no regime de chuvas pode afetar desde o plantio da safra de verão até o desenvolvimento da safrinha no ano seguinte, segundo Damasceno. “Em culturas perenes, como algumas frutas da região Sul, existe atenção para eventos como granizo e a geada. No segmento florestal, o monitoramento de risco de incêndios também ganha importância em determinadas regiões”, afirmou.

Sobre a estratégia da companhia, ele reforça o caráter preventivo da gestão de risco. “Nosso trabalho é antecipar esses movimentos. Reforçamos o monitoramento climático, atualizamos cenários de risco continuamente e ajustamos os modelos de subscrição para refletir essas mudanças”, disse Damasceno. O seguro rural brasileiro entra em uma fase de recalibração técnica, marcada por maior dependência de dados, aumento da seletividade na subscrição e maior volatilidade na precificação. O Super El Niño, nesse contexto, pode funcionar menos como um evento isolado e mais como um catalisador da sofisticação estrutural do mercado.