13 de July de 2026
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Seguro rural entra no centro da estratégia do governo diante da ameaça de um Super El Niño

  • 13/ julho / 2026

Grupo criado pelo Ministério da Agricultura vai avaliar reforço aos instrumentos de gestão de risco, incluindo possível recomposição do orçamento do PSR, enquanto fenômeno climático pode afetar a safra 2026/27 e pressionar os preços dos alimentos

Por Redação

O seguro rural passou a ocupar posição estratégica nas discussões do governo federal sobre os possíveis impactos do El Niño na agropecuária brasileira. Diante da expectativa de formação de um episódio intenso do fenômeno climático, com potencial de provocar secas, ondas de calor e chuvas excessivas durante a safra 2026/27, a equipe agrícola do Executivo pretende discutir o fortalecimento dos instrumentos de gestão de risco e avalia a possibilidade de recomposição dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

A avaliação ocorre em um momento delicado para o setor. O orçamento do PSR sofreu contingenciamento superior a 53% neste ano, reduzindo os recursos disponíveis para R$ 473,8 milhões. Agora, técnicos do Ministério da Agricultura avaliam que as conclusões do grupo de trabalho criado para acompanhar o El Niño poderão fundamentar pedidos de suplementação ou remanejamento de recursos destinados ao seguro rural.

Segundo uma fonte ligada às discussões, “a avaliação preliminar é a de que instrumentos de gestão e mitigação de risco, como o seguro rural, precisarão ser fortalecidos com urgência”.

A discussão sobre o tema foi deliberadamente retirada do lançamento do Plano Safra e passou a integrar uma estratégia mais ampla de enfrentamento aos impactos climáticos. De acordo com o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, a decisão foi tratar o financiamento agrícola e a gestão de riscos em frentes distintas. “O indicativo foi tratar o Plano Safra na área do financiamento e deixar o seguro rural para ser tratado dentro do esforço do governo sobre a potencialidade dos impactos de El Niño, em uma análise mais ampla e interministerial”, afirmou.

Segundo ele, o objetivo vai além da proteção financeira das lavouras. “A ideia é pensar não apenas no resultado final de El Niño como potencial impacto inflacionário, mas na segurança ao produtor rural para ter apetite em plantar a safra, em meio à situação de endividamento, aos preços baixos das commodities e à insegurança climática dominante”, explicou.

Campos reforçou ainda o papel estratégico da ferramenta para a continuidade da produção. “O seguro rural minimiza o efeito limitador da questão climática sobre a safra”, afirmou.

Grupo vai mapear riscos e propor medidas de adaptação

A preocupação do governo ganhou forma institucional na última semana, quando o Ministério da Agricultura criou, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União, um grupo de trabalho encarregado de avaliar os impactos do El Niño sobre a produção agropecuária brasileira.

O colegiado reunirá representantes de diferentes órgãos federais, entre eles o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com a missão de mapear vulnerabilidades regionais e setoriais, propor estratégias de mitigação e adaptação e elaborar um plano de trabalho voltado às principais cadeias produtivas do país.

Os estudos considerarão os efeitos do fenômeno sobre culturas como soja, milho, trigo, feijão, café, cana-de-açúcar e mandioca, levando em conta as particularidades de cada região produtora. Também caberá ao grupo elaborar propostas institucionais para reduzir os impactos do fenômeno sobre a produção e a produtividade agropecuária.

Além do papel técnico, o colegiado deverá funcionar como uma espécie de comitê de crise, subsidiando decisões do governo e orientando eventuais necessidades de reforço orçamentário para ações relacionadas ao enfrentamento do fenômeno climático.

Impactos podem atingir produção, inflação e programas de apoio ao produtor

A mobilização do governo ocorre em meio à expectativa de formação de um “Super El Niño”, que poderá se consolidar entre julho e setembro e elevar a probabilidade de eventos climáticos extremos durante a próxima safra.

Além dos riscos para a produção agrícola, o governo acompanha os possíveis reflexos sobre a inflação dos alimentos. Segundo Guilherme Campos, dois fatores preocupam simultaneamente. “Dois componentes preocupam: El Niño sobre a safra 2026/27 e o aumento do custo de produção, com a alta dos fertilizantes em virtude do conflito no Oriente Médio. Há canal de repasse direto à inflação dos alimentos e os instrumentos para contê-la não estão sendo eficazes como esperado”, afirmou.

A preocupação já aparece nos indicadores econômicos. O grupo Alimentação e Bebidas acumulava alta de 3,45% no IPCA-15 até junho, e o Ministério da Fazenda revisou sua projeção de inflação para 2027 de 3% para 3,5%, citando, entre os fatores de risco, a maior probabilidade de ocorrência do El Niño e o prolongamento das pressões sobre os preços dos fertilizantes.

No âmbito da agricultura familiar, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) também passou a discutir medidas preventivas. Entre elas está a busca de recursos para criação de brigadas de incêndio em assentamentos da reforma agrária, especialmente na Região Norte, utilizando recursos do Fundo Amazônia.

Outra frente envolve a ampliação da capacidade de formação de estoques públicos de alimentos para reduzir oscilações de preços. Segundo a ministra Fernanda Machiaveli, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) já mantém cerca de 800 mil toneladas de alimentos armazenadas, enquanto o governo discute novos mecanismos para ampliar essa política.

O Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) também está sendo acompanhado de perto. Embora o Ministério descarte, neste momento, risco de insuficiência orçamentária, o diretor de Financiamento, Proteção e Apoio à Inclusão Produtiva Familiar do MDA, José Henrique Silva, afirmou que o monitoramento será permanente. “O Proagro foi aperfeiçoado. Ainda há espaço confortável, mas precisamos monitorar. Todas as evidências científicas apontam que El Niño será grave e continuaremos monitorando”, disse.

O Proagro é um instrumento de apoio aos pequenos e médios produtores que cobre perdas decorrentes de eventos climáticos, pragas e doenças, garantindo a quitação de operações de crédito rural quando há frustração de safra. O programa vem passando por mudanças nos últimos anos após o crescimento expressivo das despesas e o aumento de investigações relacionadas a fraudes.

A atuação coordenada entre os ministérios da Agricultura, Fazenda e Desenvolvimento Agrário demonstra que o governo já trata a possibilidade de um Super El Niño como um tema que vai além da produção agrícola. A estratégia passa pela preservação da capacidade produtiva do campo, pela estabilidade dos preços dos alimentos e pelo fortalecimento dos mecanismos de proteção ao produtor rural, colocando o seguro rural entre os principais instrumentos para enfrentar um cenário de maior incerteza climática.

Fonte: InfoMoney