Seguro rural enfrenta novo desafio diante da escalada dos riscos climáticos
- 30/ julho / 2026
Mercado investe em tecnologia, modelos de subscrição e soluções paramétricas, mas a baixa cobertura ainda limita a proteção dos produtores diante de perdas cada vez mais frequentes
Por Tany Souza
Dados do Radar de Eventos Climáticos e Seguros, da CNseg, mostram que o Brasil ainda convive com uma expressiva lacuna de proteção climática. Atualmente, apenas 10% das perdas provocadas por eventos extremos estão cobertas por seguros, enquanto 90% dos prejuízos permanecem sem qualquer mecanismo de proteção financeira. No cenário global, a média de cobertura chega a 40%, evidenciando o tamanho do desafio brasileiro. Mais do que uma sequência de eventos isolados, esses indicadores revelam uma fragilidade estrutural na gestão de riscos do país.
Durante décadas, o mercado de seguros aperfeiçoou sua capacidade de mensurar e absorver riscos associados a grandes eventos isolados, com características bem definidas e previsíveis do ponto de vista atuarial. Esse modelo, que sustentou a evolução da indústria, passa agora por uma transformação profunda. A crescente frequência e severidade dos eventos climáticos desafiam as premissas tradicionais de precificação e exigem soluções capazes de responder a um cenário de riscos cada vez mais contínuos, sistêmicos e imprevisíveis.
“O que está acontecendo agora é diferente. Dezenas de tempestades médias acumuladas, enchentes regionais sucessivas, incêndios simultâneos em diferentes regiões. Nenhum desses eventos, individualmente, vira manchete global. O conjunto sangra o setor e, na maioria dos países, a maior parte do prejuízo fica descoberta porque os produtos disponíveis foram desenhados para outro tipo de risco”, comenta Ana Carolina Mello, sócia-diretora da Avanza, executiva com mais de 30 anos de experiência no mercado segurador.

A evolução dos riscos climáticos também tem impulsionado mudanças na forma como o mercado segurador avalia e precifica suas operações. Dados climáticos passaram a integrar os modelos de subscrição, apoiados por ferramentas capazes de mapear a exposição a riscos específicos, como inundações, em escala geográfica detalhada. A tendência é que essas tecnologias avancem para contemplar, nos próximos anos, ameaças cada vez mais relevantes, como calor extremo e seca. “No seguro paramétrico rural, o crescimento foi expressivo: entre 2021 e 2024, o número de apólices saltou de menos de dez para mais de 170, com área coberta passando de menos de 200 hectares para mais de 5.500 hectares, segundo levantamento da FGV Agro. Em 2025, a área segurada por esse modelo chegou a 11 mil hectares”, completa Carolina.
A possibilidade de retorno do fenômeno El Niño ao Brasil no segundo semestre de 2026 reforça a preocupação do setor. Com probabilidade estimada em cerca de 80% e potencial para se manifestar com forte intensidade, o fenômeno pode ampliar a ocorrência de perdas no campo, elevar a sinistralidade das carteiras de seguro rural e intensificar a demanda por mecanismos de proteção financeira por parte dos produtores. “A resposta do setor não pode continuar sendo predominantemente reativa. Risco emergente deixou de ser categoria auxiliar da estratégia. Quem ainda trata evento climático como anomalia a ser gerida está trabalhando com um mapa de risco que já não corresponde à realidade. O clima não está esperando o setor atualizar o modelo”, comenta a diretora da Avanza.
Para Fabio Damasceno, diretor técnico de seguro rural da Mapfre e vice-presidente da Comissão de Seguros Rurais da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), o impacto econômico de um evento climático não começa no momento da perda.
“Ele surge antes, quando a incerteza passa a influenciar decisões. Produtores revisam investimentos, instituições financeiras recalculam cenários e empresas reavaliam exposições. Mesmo sem uma única lavoura afetada, parte do custo já está incorporada à economia”.

Segundo ele, a agricultura brasileira avançou em tecnologia, produtividade e gestão, mas o que não mudou foi sua exposição aos extremos climáticos. Nenhum ganho de eficiência é capaz de impedir que uma estiagem prolongada ou uma sequência de chuvas fora de época comprometa uma safra inteira. “Quando isso ocorre, os efeitos ultrapassam os limites da propriedade rural. A perda de renda reduz investimentos, dificulta o acesso ao crédito e compromete o financiamento dos ciclos seguintes. O problema deixa de ser agrícola e passa a ser econômico”
Fabio explica que, nesse cenário, o seguro rural passa a ocupar um espaço maior na discussão sobre o futuro do agro. “O clima continua sendo uma variável impossível de controlar. Uma seca prolongada ou uma sequência de chuvas fora de época podem comprometer meses de trabalho e afetar a renda necessária para sustentar a produção seguinte”.
Porém, a cobertura disponível ainda não acompanha o tamanho da exposição de uma indústria a céu aberto e, parte dos produtores permanece sem proteção adequada. “As oscilações climáticas ganharam peso nas decisões de crédito, investimento e planejamento. A chegada de um novo Super El Niño recoloca essa realidade em evidência. O debate envolve a próxima safra, mas não se encerra nela. A frequência dos eventos extremos vem aumentando o custo da incerteza para produtores, empresas e instituições financeiras”, completa Damasceno.
O Super El Niño
O diretor técnico de seguro rural da Mapfre ainda comenta que as projeções certamente mudarão nos próximos meses. A intensidade do fenômeno pode surpreender para cima ou para baixo. “O desafio, contudo, permanecerá o mesmo: construir mecanismos capazes de absorver perdas antes que elas se convertam em crises. Quando o assunto é clima, a diferença entre reagir e se preparar costuma ser medida em bilhões”.
Segundo Ricardo Dornellas, da D3 Seguros, corretora parceira da Lojacorr Seguros, os reflexos desse cenário também chegam ao mercado segurador.
“O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar a circulação atmosférica em grande escala. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região, mas normalmente provocam aumento das chuvas no Sul e parte do Sudeste com tempestades mais intensas, vendavais, granizo, enchentes e inundações, enquanto parte do Norte e Nordeste pode enfrentar estiagens prolongadas.”
De acordo com o especialista, esse contexto amplia tanto a frequência quanto a gravidade dos prejuízos registrados pelas seguradoras. “Para o mercado segurador, isso representa aumento tanto na frequência quanto no tamanho dos sinistros. Os produtos mais impactados são os Seguros Auto, Residencial, Empresarial e Rural.”
Os riscos variam conforme o tipo de patrimônio. No meio rural, chuvas excessivas podem comprometer lavouras, provocar erosão do solo, favorecer doenças nas plantações e causar danos em galpões, silos, cercas, máquinas e estradas de acesso. Embora não seja possível evitar a ocorrência de eventos climáticos extremos, é possível reduzir seus impactos por meio de medidas preventivas e de uma análise criteriosa das apólices. Nesse processo, o corretor de seguros desempenha um papel consultivo, orientando os clientes sobre a proteção mais adequada para cada realidade.
“O corretor tem a função de orientar na prevenção do risco e mostrar o quanto é importante proteger o patrimônio. Também é importante conscientizar o cliente de que o seguro deve ser contratado ou endossado antes da existência de um risco iminente. Isto porque, a contratação poderá depender da vistoria de contratação para a análise da seguradora. No Seguro Rural, a recomendação é conferir se todos os bens estão corretamente relacionados na apólice e quais eventos climáticos fazem parte da cobertura contratada”, finaliza Dornellas.