Seguro rural encolhe e expõe fragilidade do agro diante de riscos climáticos
- 24/ abril / 2026
Seguro paramétrico avança como alternativa no campo diante da queda na cobertura e pressão climática crescente
Por Redação
Em matérias publicadas no Valor Econômico, um especial sobre seguros coloca o seguro rural no centro de um problema estrutural do agronegócio brasileiro. A combinação entre redução de cobertura, aumento de eventos climáticos extremos e limitações do modelo atual tem ampliado a exposição do produtor e pressionado toda a cadeia do agro.
Os dados do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural indicam uma queda acentuada na área segurada, que saiu de 13,7 milhões de hectares em 2021 para cerca de 3,2 milhões em 2025. A retração acompanha a redução dos recursos públicos destinados à subvenção, impactando diretamente a contratação de apólices e elevando a exposição do produtor.
Para Leila Harfuch, sócia-gerente da Agroicone, a retração está diretamente ligada à redução da subvenção ao prêmio. “O seguro é visto como um custo pelo produtor. Quando você tem margens mais apertadas, combinado ao alto custo de acesso ao crédito, ele é o primeiro item a ser cortado”, afirmou.
Na mesma linha, Renato Buranello, vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), alerta que o cenário vai além do custo imediato. “Essa é a nossa grande preocupação. O seguro agrícola foi um dos mais prejudicados”, disse, ao destacar que a instabilidade orçamentária compromete a previsibilidade e afeta toda a lógica de proteção no campo.
A consequência é direta no sistema financeiro do agro. Sem seguro, aumenta o risco de inadimplência e o custo do crédito. Guilherme Campos, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, reforçou esse ponto ao afirmar que “o ciclo produtivo não pode ficar condicionado a decisões orçamentárias”, defendendo maior previsibilidade para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural.
O avanço dos eventos climáticos extremos agrava ainda mais esse cenário. Segundo Confederação Nacional das Seguradoras, perdas relacionadas ao clima já somam dezenas de bilhões de reais nos últimos anos, impactando diretamente o custo do seguro e a atuação do resseguro. Para Cláudia Prates, diretora de sustentabilidade da CNseg, “quanto maior a base de segurados, maior a capacidade de distribuição de risco e menor a pressão sobre os preços”.
Segundo o FGV Agro, o avanço das perdas climáticas e a baixa penetração do seguro ampliam o risco sistêmico no setor, pressionando a inadimplência e encarecendo o crédito rural. Ou seja, sem proteção adequada, o custo do financiamento já embute o risco das perdas, afetando toda a cadeia produtiva.
A pressão climática também já mudou a lógica do mercado segurador. Dados citados no especial mostram que eventos extremos têm provocado perdas bilionárias e impactado diretamente o resseguro global. De acordo com a Swiss Re, a frequência e a severidade desses eventos aumentaram, elevando os custos e exigindo maior seletividade na aceitação de riscos.
No Brasil, essa realidade se reflete em números relevantes. O IRB(Re) aponta que há um déficit expressivo de proteção no país, com bilhões em ativos expostos sem cobertura securitária adequada, o que amplia a dependência de recursos públicos em momentos de crise.
Do lado técnico, o setor já mudou a forma de avaliar risco. Rodrigo Curi, superintendente de subscrição e precificação da Brasilseg, explicou que “a precificação deixou de ser estática e passou a acompanhar a evolução das condições de risco, com uso intensivo de dados”.
Diante desse cenário, novas soluções começam a ganhar espaço, como o seguro paramétrico. A modalidade tem avançado principalmente pela agilidade de pagamento e menor custo operacional. A Sombrero Seguradora tem ampliado sua atuação nesse segmento e vê potencial de crescimento, especialmente em regiões mais expostas a eventos climáticos, embora ainda exista o desafio de escala e entendimento do produto pelo produtor.
Guilherme Perondi, Head de Ibero-América, Oriente Médio e África da Swiss Re Corporate Solutions, destacou que o modelo “reduz custos operacionais, aumenta a previsibilidade e acelera a indenização”, o que explica o interesse crescente do mercado.
Apesar do avanço, o modelo ainda enfrenta desafios. Camila Prado, sócia do Demarest Advogados, apontou que “o produto exige esforço adicional de transparência”, especialmente na comunicação com o segurado sobre gatilhos e condições de pagamento.
Segundo dados apresentados no especial, o número de apólices paramétricas cresceu de forma relevante nos últimos anos, refletindo o interesse do mercado em modelos mais eficientes de proteção. Ainda assim, especialistas alertam que o avanço depende de maior transparência, evolução regulatória e integração com o crédito rural.
Rafael Ramalho, vice-presidente de auto, vida e massificados do Grupo HDI, destaca que a concentração de eventos climáticos tem elevado a complexidade da subscrição e exigido novos modelos de análise de risco, tendência que também se reflete no agro.
Já a MAPFRE destaca o seguro paramétrico como complemento estratégico ao modelo tradicional no agro. Segundo Fábio Damasceno, diretor de seguro rural da companhia, a solução funciona como instrumento de resiliência climática, protegendo o fluxo de caixa do produtor e reduzindo impactos econômicos negativos. O executivo ressalta ainda que a seguradora está em fase de calibragem de modelos e testes com foco em dados e tecnologia, buscando previsibilidade antes de ampliar a oferta em escala.
A conclusão do especial é de que o agronegócio brasileiro continua sendo um dos pilares da economia, mas opera com uma proteção insuficiente frente ao nível de risco atual. Sem evolução do seguro rural, com mais escala, previsibilidade e integração com crédito e mercado de capitais, o setor segue exposto e com potencial de crescimento limitado.
Fonte: Valor Econômico