15 de May de 2026
Seguros

Seguro rural encolhe e área segurada atinge menor nível desde 2015

  • 15/ maio / 2026

Queda na subvenção federal, aumento da inadimplência, juros elevados e eventos climáticos extremos pressionam o mercado e reduzem a contratação de apólices no campo

Por Redação

A combinação entre margens cada vez mais apertadas no agronegócio, juros elevados, aumento da inadimplência e maior frequência de eventos climáticos extremos tem colocado o seguro rural sob forte pressão no Brasil. O resultado já aparece nos números do setor: a contratação de apólices caiu para o menor nível desde 2015, enquanto a área segurada representa hoje menos de 3% da área plantada com lavouras e florestas no país.

O diagnóstico é de Gláucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). Segundo ele, o cenário econômico tem reduzido a capacidade dos produtores de investir em proteção. “O seguro acaba não entrando na planilha dos produtores”, afirma Toyama, ao destacar que o encurtamento das margens de lucratividade, aliado às perdas provocadas por eventos climáticos e ao aumento dos custos financeiros, vem dificultando a contratação do seguro rural.

Os primeiros dados de 2026 já acenderam um sinal de alerta para o mercado segurador. Informações da Superintendência de Seguros Privados (Susep) apontam uma redução real de 21,7% na arrecadação de prêmios do seguro rural, desconsiderando apólices de seguro de vida contratadas por produtores. O resultado sucede outra retração relevante, de 16,06%, registrada entre 2024 e 2025.

Na avaliação de Toyama, em momentos como esse o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) torna-se ainda mais importante, especialmente para pequenos e médios produtores e agricultores familiares. No entanto, ele ressalta que o programa vem perdendo força nos últimos anos.

Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mostram que, no ano passado, o valor total dos prêmios do seguro rural caiu 55,1% em termos nominais na comparação com 2024, enquanto os recursos destinados à subvenção recuaram 46,2%.

Para Toyama, ampliar os níveis de subvenção poderia evitar pressões fiscais maiores com renegociações de dívidas e programas de securitização no campo. Em setembro do ano passado, o governo autorizou R$ 12 bilhões para renegociação de dívidas de cerca de 100 mil pequenos e médios produtores afetados por eventos climáticos. Paralelamente, o Senado analisa uma linha de até R$ 30 bilhões para refinanciamento de dívidas rurais.

As limitações orçamentárias do PSR também preocupam Paulo Hora, superintendente executivo de Seguros Rurais e Resseguro da Brasilseg, empresa da BB Seguros. “As restrições orçamentárias à subvenção dificultam a previsibilidade e o planejamento das operações, dado que políticas públicas continuam sendo um fator importante para a expansão do seguro rural”, afirma.

Líder do mercado, com participação de 62,2% no segmento, a Brasilseg projeta um “ambiente ainda desafiador” para 2026. Segundo Hora, a estratégia da companhia será reforçar o portfólio com foco no segmento pecuário, proteção patrimonial do produtor e agricultura familiar, especialmente no setor de hortifrúti.

A companhia também aposta em inovação. “A Brasilseg tem avançado em novo modelo de customização de seguro agrícola, com análise individualizada por fazenda”, diz Hora. Ele destaca ainda o desenvolvimento do seguro paramétrico, atualmente baseado em índices climáticos, mas que deve ganhar novos formatos nos próximos anos.

O seguro paramétrico vem sendo utilizado tanto na proteção de pastagens quanto em nichos específicos e coberturas para catástrofes, sobretudo em regiões onde o seguro tradicional enfrenta limitações operacionais. A BB Seguros também desenvolve projetos ligados à agricultura regenerativa, com condições diferenciadas de cobertura e preços para produtores que adotam práticas sustentáveis.

Na visão de Fabio Damasceno, diretor de Seguro Rural da Mapfre, o avanço do seguro rural no país depende de maior integração entre os setores público e privado. “O avanço desse setor no país depende, em larga medida, de mecanismos de compartilhamento de riscos entre os setores público e privado e de políticas públicas bem desenhadas para permitir que o mercado privado opere com escala, diversidade de produtos e sustentabilidade técnica”, afirma.

A Mapfre lançou recentemente o biosseguro, voltado à proteção de projetos de restauração florestal e crédito de carbono. “A cobertura não se limita à recomposição da área, mas busca preservar a continuidade do projeto, o que inclui, quando aplicável, a reposição de créditos de carbono”, explica Damasceno.

Já no último ciclo agrícola, a companhia colocou em operação o seguro faixa + margem, destinado a médios e grandes produtores do Centro-Oeste. O produto utiliza proteção por faixas de produtividade, garantindo receita e rentabilidade ao produtor.

Outra seguradora que aposta em tecnologia e personalização é a Alper Seguros. Segundo Afonso Arinos Lima de Oliveira, diretor de canais e agronegócio da companhia, a empresa ampliou sua atuação no seguro paramétrico. “Entramos com os dois pés no seguro paramétrico”, afirma. Segundo ele, a companhia passou a oferecer soluções mais customizadas, utilizando índices pluviométricos, cobertura para seca e excesso de chuvas, além de ferramentas mais refinadas para análise de umidade do solo e variação de temperatura. “Conseguimos crescer no ano passado 46% aqui na Alper”, acrescenta Oliveira.

O executivo destaca ainda o uso de plataformas digitais e imagens de satélite para monitoramento das propriedades rurais. “Temos capacidade de analisar o comportamento do clima de 20 anos para cá, favorecendo a modelagem do seguro, num trabalho agora facilitado pelo uso da inteligência artificial”, comenta.

O debate sobre mudanças estruturais no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural também avança no Congresso Nacional. Segundo Letícia Toral, head de food, agriculture and beverage da Gallagher no Brasil, as discussões relacionadas ao Projeto de Lei nº 2.951 incluem propostas para tornar obrigatório o seguro rural oficial para acesso aos recursos do Plano Safra e à subvenção.

A proposta também prevê a criação de um fundo de catástrofes climáticas. O tema ganha força diante dos elevados índices de sinistralidade registrados pelo setor. Entre 2021 e fevereiro de 2026, a média ficou em torno de 62,5%, com picos próximos de 100% em 2021 e de 112,97% em 2022.

Além disso, Letícia ressalta que o mercado acompanha os impactos da Resolução 485/2025, do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), que estabeleceu diretrizes ambientais, sociais e climáticas para contratação de seguros, inclusive no setor rural.

Pelas novas regras, propriedades sem Cadastro Ambiental Rural (CAR) ativo, áreas desmatadas ilegalmente, produtores incluídos na lista federal de trabalho análogo à escravidão e imóveis localizados em unidades de conservação, terras indígenas ou quilombolas poderão ficar fora da cobertura securitária, exceto quando os segurados fizerem parte dessas comunidades.

Enquanto parte do mercado projeta um cenário mais cauteloso, algumas companhias enxergam oportunidades. É o caso da Pottencial Seguradora, especializada em máquinas e equipamentos agrícolas. “A tendência é de aumento na comercialização de máquinas e, consequentemente, na contratação de seguros, tendo em vista a expansão da área plantada e a necessidade de renovação da frota nacional, cuja idade média é de 15 anos”, afirma o vice-presidente da companhia, Carlos Ferreira Quick.

Também entre as maiores operadoras do segmento, a Sompo registrou aproximadamente R$ 373,5 milhões em prêmios no seguro rural no ano passado, equivalente a 16,7% de sua carteira total. Segundo Felipe Prado Ribeiro, diretor da área, a expectativa é manter um crescimento seletivo, com foco na qualidade da carteira.

A operação agrícola da Sompo está estruturada em três frentes: cobertura para custeio agrícola, proteção para perdas causadas por eventos climáticos adversos e seguro contra granizo.

Fonte: Valor Econômico