26 de March de 2026
Seguros

Seguro rural em debate: FGV aponta seguro paramétrico como ferramenta complementar

  • 26/ março / 2026

Estudo indica que modalidade pode ampliar cobertura, mas não substitui instrumentos estruturantes como o PSR e exige base robusta de dados

Por Redação

Pesquisadores do Observatório do Crédito e do Seguro Rural do Centro de Estudos em Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) defendem que o seguro paramétrico deve ser utilizado como alternativa “complementar” aos modelos tradicionais de seguro rural e não como substituto dos “instrumentos estruturantes” vinculados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).

O modelo, que utiliza índices climáticos para definir gatilhos de pagamento das coberturas, vem sendo defendido pelo Ministério da Agricultura como parte da estratégia para ampliar o acesso ao seguro rural, inclusive com a proposta de tornar sua contratação obrigatória em operações de crédito rural com juros controlados.

Apesar desse movimento, a adesão ainda é limitada no Brasil, com cerca de 11 mil hectares protegidos em 2025. No cenário global, o seguro paramétrico apresenta crescimento anual de 6,5%, com projeção da consultoria Allier Market Research de expansão de US$ 7,2 bilhões para mais de US$ 11,3 bilhões até 2033.

De acordo com estudo do FGV Agro, o seguro paramétrico apresenta vantagens operacionais, como a verificação automática de sinistros, o que reduz o risco de fraude na apuração de perdas, conhecido como “risco moral”, além de maior eficiência e menor custo operacional para as seguradoras.

Por outro lado, o modelo ainda enfrenta desafios relevantes. Entre eles, o desconhecimento por parte de agricultores e pecuaristas e a dependência de uma infraestrutura robusta de dados agroclimáticos confiáveis em todo o país. Sem essa base, há risco de distorções, como produtores que sofrem perdas sem atingir os gatilhos definidos, o que pode resultar na ausência de indenização.

Esse cenário pode abrir espaço para judicialização, já que o modelo se baseia em índices objetivos, como temperatura, volume de chuvas ou produtividade média, sem a necessidade de vistoria presencial individualizada. A indenização é acionada automaticamente quando o indicador atinge o nível previamente estabelecido em contrato.

Os pesquisadores destacam que, apesar da agilidade, o seguro paramétrico exige elevado rigor na modelagem estatística e na precificação. Embora exista a percepção de que o produto seria mais barato por eliminar burocracias, as taxas de prêmio podem ser equivalentes ou até superiores às do seguro rural tradicional, dependendo da cultura e da região. Além disso, produtores com menor histórico de sinistralidade não necessariamente se beneficiam de custos menores, uma vez que o chamado risco de base também é incorporado ao preço.

“O seguro paramétrico tem como maior desafio a possibilidade de o índice não refletir, adequadamente, a perda real experimentada pelo segurado individual. Pode ser que o agricultor sofra perdas substanciais sem que o índice atinja o gatilho, ou o contrário. A compreensão do seguro, que é mais abstrata que o seguro rural, pode também ser uma barreira para maior adesão, sobretudo, para os pequenos produtores”, afirmam os pesquisadores Vitor Ozaki e Daniel Miqueluti no estudo.

Segundo o observatório, o maior potencial de expansão do seguro paramétrico no Brasil está em aplicações coletivas ou institucionais, nas quais governos, cooperativas ou grandes produtores contratam apólices para regiões homogêneas, modelo já adotado em outros países.

O estudo também aponta caminhos para o fortalecimento do seguro rural no país, como investimentos em infraestrutura meteorológica, reformulação do programa Garantia-Safra, segmentação de produtos por perfil de risco e revisão dos critérios de subvenção federal ao prêmio.

“O modelo [paramétrico] deve ser entendido como uma ferramenta pontual, tecnicamente exigente e com aplicações situacionais. Sua adoção ampla no país exige investimento público consistente em dados agroclimáticos, revisão dos critérios de subvenção, capacitação regulatória e estratégias de segmentação de público”, acrescentam.

O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, tem defendido que o seguro paramétrico pode operar com taxa média de 6%, abaixo dos cerca de 8% do modelo tradicional, com previsão de subvenção de metade do prêmio pelo governo. A proposta oficial, no entanto, ainda não foi apresentada.

FONTE: Valor Econômico