7 de August de 2026
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Seguro rural e gestão de riscos climáticos dominam debate sobre adaptação no Brasil

  • 7/ agosto / 2026

Evento promovido por CNseg e iCS reuniu governo, ciência, setor financeiro e empresas para discutir prevenção, transferência de riscos e ampliação da resiliência no Brasil

Por Redação

O fortalecimento do seguro rural e a ampliação dos mecanismos de gestão de riscos estiveram entre os principais temas debatidos durante o encontro “Riscos Climáticos e o Setor Segurador: como ampliar a resiliência do Brasil?”, promovido nesta quinta-feira (6), pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Especialistas defenderam maior integração entre governo, seguradoras, instituições financeiras e produtores para ampliar a cobertura securitária e desenvolver soluções capazes de responder ao avanço das mudanças climáticas.

Ao discutir os impactos sobre o agronegócio, o presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Daniel Nascimento, afirmou que a evolução dos produtos dependerá de uma base estruturada de dados, capaz de diferenciar produtores que adotam práticas de manejo voltadas à redução dos riscos climáticos. “A seguradora precisa se apropriar das informações coletadas por análise de solo e sensoriamento para oferecer melhores condições e precificar o risco que está aceitando, em vez de tratar todos pela média”, afirmou.

Segundo Daniel, práticas como plantio direto, irrigação, escalonamento e rotação de culturas já permitem construir modelos de precificação mais aderentes à realidade do campo. Ele acrescentou que a consolidação de um banco estruturado de dados poderá impulsionar o desenvolvimento de seguros paramétricos, coberturas por talhão e novos produtos voltados aos diferentes perfis de produtores.

“O produtor precisa perceber um benefício, seja na produtividade segurada, seja no desconto da taxa. Mas isso depende de uma estrutura permanente, porque, quando há subvenção em um ano e não há no seguinte, não se consegue construir uma relação contínua”, explicou.

O gerente técnico e econômico do Sistema OCB, João José Prieto Flávio, defendeu maior articulação entre governo, cooperativas, instituições financeiras, seguradoras e produtores para ampliar a proteção da atividade agropecuária. “Se todos dizem que o setor rural é prioridade, precisamos transformar isso em uma agenda real. Temos ferramentas, dados e disposição dos diferentes atores, mas é necessário remar na mesma direção”, afirmou.

Embora o seguro rural tenha concentrado parte das discussões, o encontro também abordou os impactos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura, as cidades e os investimentos públicos e privados. Ao abrir o evento, o embaixador Antonio da Costa e Silva, chefe da Assessoria Especial de Assuntos Internacionais do Ministério das Cidades, afirmou que os desastres climáticos somente se transformam em catástrofes quando encontram desigualdade, fragilidade social e baixa capacidade de resposta.

“Para o Ministério das Cidades, não há desastres naturais. Os desastres geram catástrofes quando encontram fragilidade social, desigualdade e vulnerabilidade. Nos grandes centros urbanos e nos municípios mais vulneráveis, os principais impactados são sempre aqueles que já estão mais expostos”, afirmou.

A diretora-executiva do iCS, Maria Netto, destacou que o seguro deve ocupar papel cada vez mais relevante na adaptação climática, contribuindo para orientar investimentos e estimular medidas preventivas. “A lógica do seguro é entender que o risco existe, precificar esse risco e, preferencialmente, fazer com que o seguro não precise ser acionado. Isso também ajuda no planejamento”, disse.

Ela acrescentou que a incorporação dos riscos climáticos ao planejamento da agricultura, da infraestrutura e dos territórios permitirá distribuir melhor os custos dos eventos extremos e fortalecer a resiliência do país. Na avaliação da diretora de Sustentabilidade da CNseg, Claudia Prates, o risco climático passou a influenciar diretamente a estruturação dos investimentos em infraestrutura.

“Quando analisávamos projetos de infraestrutura, o risco climático já era observado, mas agora ele virou um fator que influencia o fluxo de caixa. Precisamos discutir como o setor segurador pode contribuir para a adaptação e como esses riscos entram na análise e na estruturação dos projetos”, afirmou.

A superintendente de Estruturação de Projetos do BNDES, Luciene Machado, acrescentou que o risco climático já influencia a avaliação de crédito, o custo do financiamento e a definição das intervenções necessárias para preservar ativos.

As projeções para os próximos anos também estiveram no centro dos debates. A presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima da Organização Meteorológica Mundial, Thelma Krug, alertou que as incertezas científicas não podem servir de justificativa para adiar medidas de adaptação. “Independentemente da incerteza, sabemos que as coisas podem piorar. Eu não sei dizer exatamente o que vai acontecer, mas sei que vai acontecer. Então precisamos nos preparar de uma maneira totalmente diferente”, afirmou.

O encontro integrou a programação da Semana do Clima de São Paulo, promovida pela CNseg, que reúne representantes do setor público, mercado financeiro, comunidade científica e setor segurador para discutir estratégias de adaptação, financiamento climático e gestão de riscos.