Seguro rural brasileiro é o mais vulnerável entre grandes produtores agrícolas, aponta estudo da FGV Agro
- 5/ junho / 2026
Levantamento mostra que o Brasil tem uma das menores coberturas do mundo, com apenas 3,3% da área plantada segurada, enquanto países como Estados Unidos e Espanha alcançam índices próximos de 90%
Por Redação
O seguro rural brasileiro apresenta hoje o cenário mais frágil entre os principais países produtores de commodities agrícolas do mundo. A conclusão é de um estudo do FGV Agro, obtido com exclusividade pelo Valor Econômico, que comparou os sistemas de proteção rural de Argentina, Chile, Espanha, Estados Unidos, Índia, México e Peru com o modelo adotado no Brasil.
Em um momento de crescente preocupação com os impactos das mudanças climáticas e diante da possibilidade de um El Niño forte nos próximos meses, o levantamento reforça a importância do seguro rural como instrumento estratégico para proteger a produção agrícola, garantir acesso ao crédito e reduzir perdas provocadas por eventos extremos.
Segundo Anna Cortellini, pesquisadora do Observatório do Crédito e Seguro Rural (OCSR) do FGV Agro e uma das autoras do estudo, o Brasil ocupa uma posição de desvantagem em relação aos demais países analisados. “Entre os grandes países produtores, o Brasil está em uma posição de maior fragilidade em seguro rural. Aqui, os produtores rurais têm menor apoio, e há menor cobertura de seguro”, afirma.
A especialista ressalta que todos os modelos analisados apresentam desafios próprios e que diferenças culturais e institucionais impedem a simples replicação de soluções adotadas em outros países. Ainda assim, ela avalia que o sistema espanhol pode servir de referência para o Brasil. “Uma opção na qual o Brasil poderia se inspirar seria o modelo espanhol, que prevê um sistema de subvenção misto, com recursos públicos e privados”, observa.
Cobertura ainda é um dos principais desafios
O estudo mostra que a Espanha possui níveis de cobertura entre 60% e 90%, dependendo da atividade agrícola. Nos Estados Unidos, o seguro rural cobre aproximadamente 90% das principais culturas, sustentado por um robusto programa de subvenção pública.
Na Índia, outro exemplo citado pela pesquisa, o produtor paga entre 1,5% e 5% do prêmio, enquanto o governo subsidia até 90% do custo da apólice. O modelo alcança cerca de 40% da área cultivada do país. “No caso do Brasil, é difícil comparar com os Estados Unidos, que possuem o sistema de seguro mais robusto. Mas, na Ásia, a Índia tem um seguro rural que funciona, por exemplo”, destaca Cortellini.
Enquanto isso, a realidade brasileira permanece distante desses índices. Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que apenas 3,3% da área plantada de grãos na safra 2024/25 contou com proteção securitária. A pesquisadora observa ainda que a falta de previsibilidade dos recursos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) continua sendo um dos principais entraves para a expansão do mercado.
Além disso, produtores localizados em regiões consideradas menos arriscadas tendem a contratar menos seguro, reduzindo a pulverização necessária para o equilíbrio do sistema. “No entanto, produtores que não se preocupavam com seguro estão se preocupando. Existe uma preocupação tanto pela crise econômica, quanto pelos fenômenos climáticos, porque ninguém sabe quanto o El Niño vai impactar este ano”, afirma.
Cortes no PSR preocupam o mercado
O presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Daniel Nascimento, lembra que atualmente o governo federal subsidia até 20% do valor das apólices de soja e até 40% para outras culturas por meio do PSR. “O grande problema dos últimos anos é que, quando chega na execução do programa, o orçamento do PSR sofre cortes e o valor que o produtor teria de apoio acaba sendo cobrado pela seguradora”, diz.
Os números reforçam a preocupação do setor. O maior volume de recursos executados pelo programa ocorreu em 2021, quando foram destinados R$ 1,15 bilhão à subvenção. Desde então, os valores vêm diminuindo. Em 2025, o orçamento executado caiu para R$ 565,3 milhões, o menor nível desde 2019.
No ano passado, o orçamento inicial previsto para o PSR era de R$ 1,06 bilhão, mas sofreu uma redução de 47%.
Projeto de lei pode fortalecer o seguro rural
Na tentativa de fortalecer o sistema, a Câmara dos Deputados aprovou recentemente um projeto de lei que reformula o marco legal do seguro rural. O texto prevê condições mais vantajosas para operações de crédito rural contratadas com seguro, incluindo juros menores, prazos diferenciados e prioridade na concessão de financiamentos.
A proposta também busca proteger os recursos destinados ao seguro rural dentro do orçamento do Ministério da Agricultura, proibindo bloqueios e contingenciamentos dos valores destinados à subvenção. Como recebeu alterações na Câmara, o projeto retornou ao Senado para nova análise. “O PL vem para evitar que o orçamento [do PSR] sofra cortes e contingenciamentos. O mercado segurador está muito otimista com a aprovação, não só por isso, mas também pelo fundo de catástrofe que está sendo desenhado”, avalia Nascimento.
Segundo o dirigente da FenSeg, a aprovação dessas medidas poderá aproximar o Brasil dos modelos adotados pelos países com sistemas mais maduros. “Vai para um patamar mais próximo dos sistemas de países mais maduros”, afirma.
Para ampliar efetivamente a cobertura e desenvolver o mercado, Nascimento estima que seriam necessários cerca de R$ 3 bilhões anuais em recursos federais destinados à subvenção. “Dificilmente esse montante virá, mas ele permitiria que as seguradoras pudessem se preparar e investir em tecnologias para vistorias remotas para as perícias, por exemplo”, diz.
Mesmo diante dos desafios, o setor segue mobilizado para ampliar a proteção no campo. Ainda assim, o executivo alerta que o cenário permanece complexo. Segundo Nascimento, 2025 foi “muito difícil” para o mercado de seguro rural e 2026 “ainda tem um cenário muito desafiador”.
Fonte: Valor Econômico