14 de April de 2026
Seguros

Crédito, seguro e capital privado redesenham o financiamento do agronegócio no Brasil

  • 14/ abril / 2026

Debate setorial aponta limites do modelo atual e reforça o seguro rural como pilar para destravar crédito e atrair investimentos

Por Tany Souza

A necessidade de integração entre crédito, seguro e mercado de capitais ganhou força no debate promovido durante o Diálogo Setorial: Seguros, Crédito e Agronegócio, realizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) e pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). O encontro reuniu lideranças do setor para discutir novos instrumentos de financiamento e caminhos para ampliar a proteção no campo.

O consenso é direto: o modelo atual não sustenta mais o crescimento do agro. Para Renato Buranello, vice-presidente da ABAG, o sistema precisa de uma mudança estrutural. “A esteira regulatória está posta e a mudança de modelo já está em curso. O momento de ajustes pontuais ficou para trás. Precisamos de um novo sistema estruturante, baseado na integração entre crédito, seguro e mercado de capitais. Essa nova lei pode ser a porta de entrada para esse modelo no seguro rural”, afirma.

Na mesma linha, Fabiana Perobelli, Client Relationship – Brokers and Agribusiness Companies da B3, reforça que o desafio vai além do financiamento tradicional. “O agronegócio continuará demandando tecnologia e capital. Precisamos combinar novas avenidas de financiamento com gestão de risco de preços e seguro climático. Esses são os três pilares para garantir sustentabilidade e atratividade ao setor”, diz.

A insegurança ainda é um dos principais entraves para a entrada de investidores. João Rabelo, diretor de Novos Negócios do IRB(Re), destaca que previsibilidade é condição básica para ampliar o fluxo de capital. “A incerteza afasta o investidor. O marco legal é fundamental para dar clareza e segurança. No agro, além dos fatores tradicionais de crédito, temos o risco climático, que precisa ser mitigado por instrumentos como o seguro”, explica.

Do lado do financiamento público, Marcelo Porteiro, superintendente da Área Agropecuária e de Inclusão Social do BNDES, reconhece que o Plano Safra já não consegue atender sozinho à demanda do setor. “Estamos avançando em parcerias com o mercado e estruturando soluções além do crédito tradicional. Mas é essencial ampliar a presença do seguro rural para dar sustentação a esse crescimento e reduzir riscos sistêmicos”, afirma.

Octaciano Neto, sócio-fundador da Zera.Ag, resume o momento como uma transição inevitável. “O crédito já foi a solução central. Hoje, virou uma colcha de retalhos. Não existe mais solução única. Precisamos integrar bancos, mercado de capitais e seguros para dar conta da complexidade do agro”, avalia.

A pressão sobre o produtor também foi destaque. Pedro Lupion, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), aponta que o ambiente atual combina juros elevados, aumento de custos e dificuldade de acesso ao crédito. “Infelizmente, tivemos um retrocesso de quase uma década no seguro rural. Sem subvenção adequada, o produtor está pagando essa conta sozinho. Quanto mais segura a operação, menor o risco para as instituições financeiras e mais barato tende a ser o crédito”, afirma.

Segundo Lupion, o avanço legislativo é decisivo para mudar esse cenário. “Precisamos de um seguro rural efetivo, que dê previsibilidade e permita planejamento de safra. O objetivo é garantir condições reais para que o produtor consiga mitigar riscos e manter sua atividade”, completa.

Destravando o seguro rural

O debate também evidenciou os gargalos específicos do seguro rural no Brasil. Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, avalia que o desenvolvimento do mercado passa por dois pontos centrais: política pública e percepção de valor. “Existe uma limitação clara relacionada ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Em um cenário de margens pressionadas, isso impacta diretamente a adesão. Ao mesmo tempo, o mercado ainda trabalha com modelos tradicionais, que podem evoluir com soluções como o seguro paramétrico”, afirma.

Ele destaca ainda que o problema não é apenas estrutural, mas cultural dentro do próprio ecossistema. “Cooperativas, agentes financeiros e demais participantes ainda não percebem o seguro agrícola como uma ferramenta essencial de proteção. Muitas perdas recentes decorrentes de eventos climáticos poderiam ter sido mitigadas, reduzindo inclusive a inadimplência no sistema”, conclui.

O diagnóstico é claro e converge entre os participantes: sem um seguro rural robusto, o crédito encarece, o risco aumenta e o crescimento do agronegócio fica comprometido.