Seguro rural amplia critérios de avaliação e passa a considerar gestão de riscos e adaptação climática nas propriedades
- 8/ julho / 2026
Além da localização e do histórico produtivo, seguradoras incorporam fatores como tecnologia, infraestrutura e estratégias de prevenção para definir a aceitação e a precificação das apólices
Por Redação
O avanço dos eventos climáticos extremos está provocando mudanças na forma como o mercado de seguro rural analisa os riscos no agronegócio brasileiro. Se antes a avaliação estava concentrada principalmente na localização da propriedade e no histórico de produtividade, hoje seguradoras e resseguradoras também consideram aspectos relacionados à gestão da atividade, à capacidade de prevenção de perdas e às medidas de adaptação às mudanças climáticas.
A transformação ocorre em um cenário de aumento da exposição do campo aos riscos climáticos. Entre 2022 e 2024, o Brasil contabilizou 67 eventos climáticos de grande impacto, responsáveis por prejuízos estimados em R$ 184 bilhões, segundo o Radar de Eventos Climáticos e de Seguros no Brasil, divulgado em 2025 pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) em parceria com a EY. Desse total, apenas 9% estavam protegidos por seguros.
O cenário tornou-se ainda mais delicado após o bloqueio de R$ 461,7 milhões do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) para 2026, medida que restringe o acesso ao seguro justamente em um período de maior vulnerabilidade às perdas provocadas pelo clima.
Hoje, menos de 20% da área agrícola brasileira possui algum tipo de cobertura securitária, enquanto mais de 1.900 municípios são classificados como vulneráveis a eventos climáticos extremos, conforme dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Para Talita Ferrari, sócia e diretora comercial da Wiz Corporate, especializada em corretagem de seguros corporativos, a nova realidade climática exige uma análise muito mais detalhada do perfil de cada propriedade. “Hoje, duas propriedades rurais localizadas na mesma região podem apresentar níveis de exposição e risco completamente distintos. O que passou a fazer a diferença é a capacidade do produtor rural de identificar vulnerabilidades, investir em prevenção e implementar medidas de adaptação climática”, afirma.
Nos últimos cinco anos, o mercado segurador ampliou significativamente os critérios utilizados na análise das propostas de seguro rural. Além das características geográficas, passaram a ganhar peso fatores como infraestrutura da propriedade, gestão dos recursos hídricos, sistemas de irrigação, monitoramento climático, adoção de tecnologias no campo, capacidade de armazenagem, práticas de manejo, diversificação da produção e planejamento financeiro.
Segundo Talita Ferrari, propriedades que adotam programas estruturados de gestão de riscos tendem a apresentar maior resiliência e menor severidade de perdas diante de eventos climáticos extremos. Ela destaca ainda que ferramentas como agricultura de precisão, monitoramento climático e sistemas avançados de manejo têm proporcionado ganhos médios de produtividade entre 10% e 20% em culturas como soja, milho e algodão, além de elevar a eficiência no uso da água e dos insumos agrícolas.
Na avaliação da executiva, a gestão de riscos tornou-se um componente estratégico para garantir a sustentabilidade econômica da atividade rural. “O seguro rural continua sendo fundamental para proteger o fluxo de caixa do produtor diante de perdas provocadas por eventos climáticos extremos. Mas, cada vez mais, ele precisa estar integrado a uma estratégia ampla de prevenção e mitigação de impactos. O produtor que investe em resiliência, tecnologia e planejamento tende a ter maior capacidade de recuperação e mais sustentabilidade econômica no longo prazo”, explica.