26 de February de 2026
Seguros

Seguro pecuário tem recorde de arrecadação histórico, mas ainda com baixa penetração no rebanho bovino brasileiro

  • 26/ fevereiro / 2026

CNseg e FenSeg trazem estudo mostra esse avanço e os desafios para ampliar a atuação no mercado

Por Redação

O mercado brasileiro de seguros pecuários e de animais atingiu, em 2025, o maior volume de arrecadação de sua história, mas o avanço ainda contrasta com a dimensão do risco no campo: apesar do crescimento expressivo, exercícios estimativos indicam que apenas uma fração reduzida do rebanho bovino nacional está potencialmente protegida, o que evidencia a baixa penetração do seguro na atividade pecuária. Entre janeiro e outubro, a arrecadação somou R$ 187,6 milhões, alta de 24% na comparação com o mesmo período de 2024 e de 267% em relação a 2021, quando o volume arrecadado foi de R$ 51,1 milhões.

Os dados fazem parte de levantamento conjunto da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). O estudo mostra que o Seguro Pecuário respondeu pela maior fatia do crescimento, com R$ 165 milhões em prêmios no período, avanço de 25,9%. Já o seguro de animais arrecadou R$ 22,6 milhões, crescimento de 11,4%.

Segundo Karen Matieli, corretora especialista em seguro pecuário, da Denner Seguro de Animais, esse levantamento significa na prática que um patrimônio bilionário segue exposto a riscos climáticos, sanitários e de mercado que já fazem parte da rotina do campo. “O seguro ainda é visto por muitos produtores como custo, quando deveria ser tratado como ferramenta de gestão e proteção da atividade”.

Na distribuição regional, Minas Gerais lidera o ranking nacional, com R$ 26,5 milhões em prêmios totais, sendo R$ 25 milhões concentrados exclusivamente no seguro pecuário. São Paulo aparece na sequência, com R$ 24,6 milhões, e assume a liderança no seguro de animais, com R$ 10,2 milhões. Goiás (R$ 23,2 milhões), Maranhão (R$ 15,2 milhões) e Mato Grosso (R$ 15,1 milhões) completam o grupo dos cinco estados com maior volume de contratações.

O desempenho mineiro reflete o peso estrutural do estado na pecuária nacional, que reúne o terceiro maior rebanho bovino do país, estimado em cerca de 27 milhões de cabeças, além da recorrência de eventos climáticos adversos, como secas no Triângulo Mineiro e geadas que comprometem pastagens. Já em São Paulo, a maior demanda pelo seguro de animais está associada a sistemas produtivos intensivos, como confinamentos e integração lavoura-pecuária, além da presença de criações de maior valor agregado, como suínos e aves.

Goiás amplia sua participação impulsionado pela expansão da atividade pecuária no Centro-Oeste, enquanto Mato Grosso se beneficia da escala produtiva, apesar dos desafios logísticos. O Maranhão se destaca pela expansão recente da pecuária na região de Balsas, combinada a enchentes frequentes, que elevam a percepção de risco e estimulam a busca por proteção.

Um alerta para o setor

Apesar do avanço, a baixa participação segue como principal alerta do setor. Considerando, de forma hipotética, o tamanho do rebanho bovino brasileiro, estimado em 238,2 milhões de cabeças, um valor patrimonial aproximado da ordem de R$ 600 bilhões e um prêmio médio em torno de 1%, o volume atualmente arrecadado sugere que apenas uma pequena parcela desse patrimônio está protegida — um exercício que, a partir dessas premissas, aponta para uma cobertura em torno de 3%.

Daniel Nascimento, vice-presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, ressalta que, ainda que esse cálculo dependa de hipóteses e não represente uma mensuração direta, o resultado ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. “Trata-se de um volume expressivo ainda descoberto, o que evidencia tanto a dimensão do risco quanto a oportunidade de ampliar a proteção e a previsibilidade para a atividade pecuária no país”, afirma.

Segundo o executivo, fatores culturais, econômicos e de conhecimento ajudam a explicar a baixa adesão. A cultura do seguro entre produtores rurais ainda é limitada, inclusive em modalidades mais consolidadas, como o seguro agrícola, que também cobre menos de 3% da área plantada no país, de acordo com levantamento recente da CNseg. “Soma-se a isso o desconhecimento, por parte de muitos pecuaristas, sobre a existência e o funcionamento dos produtos voltados à proteção do rebanho”, detalha.

O levantamento também mostra aumento no pagamento de indenizações, sinalizando maior uso das coberturas. Entre janeiro e outubro, de 2021 a 2025, as indenizações do seguro pecuário cresceram 46,1%, passando de R$ 8,6 milhões para R$ 12,6 milhões. No seguro de animais, o avanço foi de 34,9%, de R$ 8,3 milhões para R$ 11,2 milhões.

Para Karen, o aumento das indenizações é um sinal positivo, de que o seguro funciona e entrega valor, mas há algo que o mercado deve estar atento. “O foco deve estar em informação, proximidade com o produtor e soluções mais conectadas à realidade da pecuária brasileira. O seguro pecuário precisa deixar de ser exceção e passar a ser decisão estratégica no campo”.

No desenho dos produtos, o seguro pecuário integra o Seguro Rural e garante indenização em caso de morte e variação de preço de animais destinados à produção, cria, recria, engorda, trabalho por tração ou reprodução, incluindo atividades como monta natural, coleta de sêmen e transferência de embriões, com isenção tributária. Já o seguro de animais é voltado a criações de elite, domésticas ou de segurança, como aquelas destinadas ao lazer ou a provas esportivas, não sendo enquadrado como seguro rural e, portanto, sem benefício fiscal.

Nascimento conclui afirmando que ampliar a cobertura do seguro pecuário e de animais exige avanço na disseminação de informação, maior integração do seguro à gestão de risco do produtor e o amadurecimento do mercado, de forma compatível com a relevância econômica e patrimonial da pecuária brasileira.