Seguro paramétrico ganha espaço contra catástrofes e modelo do México pode inspirar o Brasil
- 21/ agosto / 2026
Especialista aponta potencial para ampliar o uso de gatilhos paramétricos e transferir riscos de desastres ao mercado de capitais
Por Redação
O avanço dos eventos climáticos e o aumento das perdas econômicas provocadas por catástrofes ampliam a discussão sobre o uso do seguro paramétrico no Brasil. A experiência do México, que estruturou uma política de transferência de riscos envolvendo seguros, resseguros e mercado de capitais, foi apresentada como uma referência que pode contribuir para o desenvolvimento desse modelo no país.
O tema foi abordado por Dario Luna Pla, líder regional de Soluções Estratégicas de Resseguro da Lockton Re para a América Latina e o Caribe, durante o evento “Conversas do Fórum – Segunda Edição: O futuro do seguro frente às catástrofes e aos eventos climáticos”, realizado pelo Fórum Mário Petrelli de Fomento do Mercado de Seguros, Previdência, Capitalização e Resseguros, no dia 19 de agosto, na Escola de Negócios e Seguros (ENS), em São Paulo, com transmissão ao vivo.
Segundo Luna Pla, mais de 11 milhões de pessoas foram afetadas, em média, a cada ano por desastres naturais na última década, número sete vezes superior ao registrado na década anterior. “Essa magnitude de afetação, sem dúvida, faz com que o problema seja mais sensível para a sociedade e para o governo”, afirmou.
Estimativas do Banco Mundial apresentadas pelo executivo indicam que as perdas médias anuais provocadas por desastres naturais correspondem a 0,35% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Somente as enchentes representam perdas equivalentes a 0,25% do PIB. Com o avanço das mudanças climáticas, esses prejuízos poderiam aumentar 28% em um cenário de aquecimento de 2°C e 54% caso a elevação da temperatura alcance 3°C.
De acordo com Luna Pla, o Brasil não possui mecanismos federais de transferência desses riscos, o que mantém o impacto financeiro dos desastres concentrado no setor público.
Mercado de capitais pode ampliar capacidade para catástrofes
Uma das alternativas apontadas pelo especialista é ampliar a transferência dos riscos de catástrofes para o mercado de capitais por meio de instrumentos como a Letra de Risco de Seguro (LRS). “Existe um enorme potencial para empresas, órgãos governamentais, seguradoras e resseguradoras brasileiras transferirem risco de catástrofe ao mercado de LRS (Letra de Risco de Seguro). O LRS pode atrair investidores locais e estrangeiros para desenvolver a classe de ativos, aproveitando a experiência do mercado de ILS”, afirmou.
O mercado de Insurance-Linked Securities (ILS) reúne instrumentos financeiros vinculados a riscos de seguros, entre eles os títulos de catástrofe, conhecidos como cat bonds. Para o mercado segurador brasileiro, Luna Pla vê espaço para ampliar a capacidade destinada aos riscos de catástrofes naturais e desenvolver novas estruturas de transferência de risco.
“É uma oportunidade de expandir a sua penetração; aumento da capacidade disponível para risco de catástrofes naturais no país como um todo; a expansão de um mercado interno de cat bonds que oferece tanto capacidade adicional plurianual às seguradoras quanto retornos atrativos aos investidores locais; uma oportunidade de desenvolver e expandir o uso de modelos de catástrofe robustos e expandir estruturas de seguro inovadoras, como gatilhos paramétricos”, disse Dario Luna Pla.
Seguro paramétrico mexicano alcança US$ 1,2 bilhão em cobertura
O México começou a estruturar seu modelo de transferência de riscos de catástrofes há duas décadas. Em 2006, tornou-se o primeiro país soberano a transferir risco de terremoto ao mercado de capitais por meio do programa CatMex.
Entre 2009 e 2024, com o MultiCat, a estrutura passou a transferir aos mercados de capitais riscos relacionados tanto a terremotos quanto a furacões. A partir de 2011, o resseguro por indenização passou a operar em conjunto com o protocolo de sinistros do Fonden e a contemplar emergências provocadas por desastres naturais. “A partir de 2011, o resseguro por indenização passa a operar com o protocolo exclusivo de sinistros do Fonden e cobre qualquer emergência de desastre natural”, afirmou Luna Pla.
Em 2025, o seguro paramétrico passou a integrar essa estrutura em interação com o programa de cat bonds, oferecendo cobertura para terremotos, erupções vulcânicas, furacões e enchentes. A dimensão financeira do programa cresceu significativamente desde sua criação. Segundo Luna Pla, a cobertura anual, que começou próxima de US$ 200 milhões em 2006, alcançou US$ 1,2 bilhão.
“É um programa de US$ 1,2 bilhões de cobertura anual, quando começou (em 2006), era pouco de US$ 200 milhões. Tanto para o mercado de seguros quanto para o de capitais, isso traz muitas vantagens para o governo. Ajuda para que contratação seja mais eficiente, os mercados se familiarizam com o risco e com os contratos”, explicou.
América Latina amplia uso do seguro paramétrico
A experiência mexicana ganha relevância para o Brasil em um período no qual o seguro paramétrico avança na América Latina. Diferentemente das coberturas indenitárias tradicionais, esse modelo utiliza parâmetros previamente estabelecidos para determinar o acionamento da cobertura, permitindo estruturar soluções para riscos associados a eventos como excesso ou falta de chuva, terremotos e furacões.
Luna Pla participou diretamente da construção da estratégia de gestão de riscos de desastres do Governo Federal do México e do desenvolvimento de seguros paramétricos na região. O executivo também foi responsável pela criação do primeiro seguro paramétrico digital contra terremotos da América Latina voltado ao mercado de varejo. “A América Latina é a região do mundo em que mais cresce o seguro paramétrico”, conclui.
A experiência apresentada no evento indica que a expansão desse mercado no Brasil pode envolver uma combinação entre seguros e resseguros, instrumentos do mercado de capitais e modelos paramétricos, ampliando a capacidade financeira disponível para responder às perdas provocadas por catástrofes naturais.