Seguro deixa de ser custo e passa a integrar estratégia do agro diante do Super El Niño
- 25/ junho / 2026
Seguro para máquinas, proteção patrimonial e continuidade operacional ganham protagonismo em cenário de maior volatilidade climática
Por Tany Souza e Carlos Pacheco
Com a possibilidade de um Super El Niño entre 2026 e 2027, a discussão sobre seguros no agronegócio começa a extrapolar as lavouras. Além da proteção da produção agrícola, cresce a preocupação com a preservação da capacidade operacional das propriedades rurais, especialmente em relação às máquinas e equipamentos, que podem sofrer danos provocados por enchentes, vendavais, granizo e outros eventos extremos.
O movimento acompanha um cenário de aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos, que amplia a exposição financeira dos produtores e exige uma visão mais abrangente sobre gestão de riscos.
“As máquinas são fundamentais e essenciais para a produção agrícola e o Seguro para Equipamentos é uma garantia de manter a produtividade em um momento de adversidades”, afirma Leonardo Duque, gerente sênior de Agro da Bradesco Seguros.
Segundo o executivo, o fenômeno do El Niño aumenta a probabilidade de eventos como chuvas intensas, enchentes e vendavais, tornando ainda mais relevante a proteção patrimonial. Duque ressalta que o produto também permite contratar coberturas complementares, como danos elétricos e perda ou pagamento de aluguel. “Proteções adicionais que vão além da preservação do patrimônio, atuando diretamente na preservação da capacidade produtiva e na estabilidade financeira do negócio.”
Para ele, o seguro passa a desempenhar um papel estratégico. “Em um cenário em que o clima impacta diretamente a produtividade e a renda, a proteção securitária deixa de ser opcional e passa a ser um fator estratégico e crítico para a resiliência do produtor rural. Estar segurado é garantir a capacidade de reação e de recuperação frente às intempéries, tal como as decorrentes do El Niño.”
Seguro acompanha nova dinâmica climática
A própria estrutura das seguradoras também vem sendo preparada para uma eventual intensificação dos eventos extremos. Segundo Leonardo Duque, a Bradesco Seguros mantém monitoramento contínuo das condições climáticas e revisa permanentemente seus processos de atendimento. “Em cenários de eventos extremos, destaca-se a ativação da Operação Calamidade, um modelo estruturado de atendimento diferenciado e humanizado, que prevê a mobilização de equipes dedicadas in loco nas regiões afetadas, com foco em acelerar o suporte aos segurados e à comunidade local.”
Para ele, a estratégia também envolve a atuação conjunta com corretores. “Essa atuação é complementada pelo suporte permanente à rede de corretores, que exerce papel fundamental na orientação dos clientes e na disseminação de informações essenciais em momentos críticos.”
Além da proteção patrimonial, Fábio Damasceno, diretor de Seguro Rural da MAPFRE, avalia que o cenário climático tende a acelerar uma mudança cultural no agronegócio e o seguro precisa ser incorporado ao planejamento da atividade rural da mesma forma que outros insumos essenciais.
“Eu tenho repetido uma mensagem que considero importante. O seguro rural precisa ser visto da mesma forma que outros insumos fundamentais da produção. O produtor planeja a compra de sementes, fertilizantes, defensivos e tecnologia porque sabe que esses investimentos são necessários para produzir. A proteção de todo esse mecanismo deveria fazer parte dessa mesma lógica”, comenta Damasceno.
Segundo ele, a percepção dos produtores muda sempre que ocorrem eventos climáticos severos. “Nos anos em que o clima ajuda, essa percepção muitas vezes perde força. Quando surgem eventos mais severos, ela volta para o centro da discussão. O que estamos observando é que esses eventos estão ficando mais frequentes, mais intensos e mais ‘caros’.”
Damasceno afirma que o fortalecimento da cultura do seguro representa uma das principais oportunidades para o mercado. “A grande oportunidade para o mercado é justamente avançar nessa conscientização. Um produtor protegido consegue preservar capacidade financeira, manter acesso ao crédito e planejar, de modo viável, a próxima safra com muito mais previsibilidade.”
Na avaliação do executivo, o avanço do seguro acompanha a própria evolução do agronegócio brasileiro. “O Brasil se consolidou como uma potência agrícola global. O próximo passo é construir mecanismos de proteção compatíveis com a dimensão e a relevância desse agronegócio.”
A possibilidade de um Super El Niño reforça uma transformação que já vinha ocorrendo no mercado. Se antes o seguro era frequentemente contratado apenas diante da iminência de perdas, agora passa a integrar a estratégia financeira e operacional das propriedades rurais. A tendência é que a proteção avance para além da indenização de prejuízos, consolidando-se como ferramenta de continuidade dos negócios, preservação do crédito, estabilidade patrimonial e maior capacidade de adaptação do agronegócio brasileiro a um ambiente climático cada vez mais incerto.