24 de February de 2026
Colunista - Camila Feriani

O seguro agrícola e o complemento do seguro paramétrico

  • 24/ fevereiro / 2026

Por que o modelo tradicional já não responde sozinho aos desafios do agro?

Camila Feriani

O agronegócio brasileiro sempre esteve exposto ao risco climático. Secas, excesso de chuvas, geadas e variações de temperatura fazem parte da história do setor. O que mudou nos últimos anos não foi a existência desses eventos, mas a sua frequência, intensidade e imprevisibilidade. O clima deixou de ser um fator estatístico e passou a ser um elemento estrutural de risco para o negócio agrícola.

Nesse novo contexto, o seguro agrícola tradicional permanece essencial. Ele protege o patrimônio produtivo, garante cobertura para perdas físicas na lavoura e é a principal ferramenta de mitigação de risco reconhecida por instituições financeiras. É, na prática, a base de sustentação do crédito rural e da previsibilidade mínima necessária para o produtor investir.

Mas o modelo tradicional enfrenta limitações evidentes. Baseado na comprovação de perdas e em processos de regulação que demandam tempo, ele nem sempre acompanha a velocidade com que o impacto financeiro se materializa na operação. Muitas vezes a lavoura não sofre perda total, mas enfrenta redução de produtividade ou qualidade suficiente para comprometer margem, fluxo de caixa e capacidade de honrar compromissos.

É justamente nesse ponto que o seguro paramétrico se torna um complemento estratégico. Diferentemente do modelo convencional, ele não depende de vistoria individual nem da apuração direta de dano. A indenização é acionada automaticamente quando indicadores climáticos previamente definidos, como volume acumulado de chuva, estiagem prolongada ou temperaturas extremas, que atingem níveis críticos.

A lógica é simples e poderosa: se o evento climático ultrapassou o limite contratado, o pagamento ocorre. Isso reduz incertezas operacionais, agiliza o recebimento da indenização e oferece liquidez no momento mais sensível da safra. O foco deixa de ser apenas a perda física e passa a incluir a proteção da receita.

Importante frisar: não se trata de substituição. O seguro agrícola tradicional continua sendo indispensável para cobrir danos efetivos à produção. O paramétrico entra como camada adicional de proteção, funcionando como estabilizador de renda e ferramenta de gestão financeira.

Em um ambiente de crédito mais seletivo, custos elevados e maior volatilidade climática, a combinação de instrumentos se torna diferencial competitivo. Produtores que estruturam um programa híbrido de proteção, com o tradicional mais paramétrico, reduzem exposição, ganham previsibilidade e fortalecem sua posição junto a financiadores e parceiros comerciais.

O risco climático não desaparecerá. A diferença está em como ele é tratado. Integrar seguro agrícola tradicional e seguro paramétrico não é sofisticação excessiva. É evolução na gestão do negócio rural. Em um agro cada vez mais profissional e orientado a resultado, proteger produção e renda ao mesmo tempo deixou de ser opcional. É estratégia.