FGV Agro propõe integração entre seguro rural, crédito e Proagro com avanço do Zarc Níveis de Manejo
- 20/ maio / 2026
Nota técnica do OCSR defende modelo de incentivo integrado para ampliar a resiliência climática, melhorar a gestão de risco e fortalecer o seguro rural brasileiro
Por Tany Souza
O seguro rural brasileiro pode entrar em uma nova fase de avaliação de risco climático, mais técnica, personalizada e conectada à realidade das propriedades agrícolas. É o que aponta a Proposta do FGV Agro – OCSR de evolução do ZARCNM, um incentivo integrado para seguro rural, crédito e Proagro, do Centro de Estudos do Agronegócio, da Fundação Getúlio Vargas.
O modelo aprovado para 2026, das Resoluções CGSR nº 110 e nº 111 de 2026, moderniza o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) ao incluir o projeto-piloto ZARC Níveis de Manejo (ZarcNM). Segundo o estudo, a medida evita exclusão prematura de produtores em processo de evolução técnica e amplia a base de participação no programa.
A nota destaca que o ZarcNM parte de uma lógica diferente do zoneamento tradicional. Enquanto o modelo convencional considera clima, solo e ciclo da cultura, a nova metodologia incorpora práticas de manejo como fator determinante na mitigação de riscos climáticos, principalmente em períodos de seca, hoje a principal causa de perdas na produção brasileira de grãos.
De acordo com o documento, práticas conservacionistas podem aumentar em até 545% a infiltração de água no solo e em até 250% o volume de água acessível às plantas, fortalecendo a resiliência hídrica das lavouras.
A metodologia classifica as áreas produtivas em quatro níveis de manejo e utiliza indicadores mensuráveis, reportáveis e verificáveis (MRV), combinando sensoriamento remoto e análise de solo para garantir rigor técnico na avaliação. No caso da soja, por exemplo, os níveis foram associados à profundidade efetiva do sistema radicular, variando entre 40 cm e 100 cm.
“Essa métrica permitirá a diferenciação daquele produtor que não faz nenhum manejo e daquele que investe em tecnologia, em solo, de forma que possa ter uma diferenciação na política agrícola, seja via seguro, crédito, Proagro, um incentivo para que tenha acesso a condições mais favoráveis. No futuro, o mais importante será financiar melhor e conhecer o risco que está em campo”, comenta Pedro Loyola, coordenador executivo do FGV Agro–OCSR.
Outro ponto destacado pela FGV Agro é que a subvenção diferenciada corrige distorções históricas ao deixar de tratar áreas resilientes e degradadas da mesma forma. “O orçamento público passa a induzir mudanças de comportamento produtivo”, aponta a nota técnica.
Integração entre seguro, crédito e Proagro
A proposta defendida pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural prevê uma integração gradual entre o ZarcNM, o seguro rural, o crédito rural e o Proagro. O objetivo é criar um modelo de incentivo progressivo capaz de premiar produtores com melhor manejo do solo e menor exposição climática.
Entre as medidas sugeridas estão descontos na taxa de juros para produtores enquadrados em níveis superiores de manejo, bônus de adimplência e incentivos específicos para agricultores familiares vinculados ao Proagro Mais.
Na avaliação da FGV Agro, a integração transforma o ZarcNM em um instrumento estratégico de adaptação climática. “Ao vincular o desconto no adicional do Proagro à elaboração de planos de manejo e acompanhamento técnico, cria-se um ciclo virtuoso: o incentivo econômico melhora o solo, reduz a exposição à seca e diminui a sinistralidade dos programas públicos”, destaca o documento.
A nota técnica também alerta para desafios operacionais e riscos de assimetria de acesso. Segundo o estudo, produtores com maior assistência técnica e acesso a tecnologias podem sair na frente, o que exigirá atuação coordenada de cooperativas, seguradoras, assistência técnica pública e privada e operadores de sensoriamento remoto.
O documento ressalta ainda que o sucesso do modelo dependerá da atuação integrada entre produtores, laboratórios, seguradoras, operadores de sensoriamento e órgãos públicos, como Mapa e Embrapa.
“O Zarc está começando, por isso esse é o momento bom para aqueles que não conhecem a metodologia, para aproveitar os projetos pilotos e inserir suas cooperativas, seguradoras, instituições financeiras, porque no futuro essa será a principal base da política agrícola com dados de produtividade e assim, finalmente, teremos uma métrica objetiva, que trará informação para diferenciar produtores, produtos e gestão de riscos”, reforça Loyola.
Apesar do avanço metodológico, a FGV Agro considera que o orçamento ainda é limitado. A reserva de R$ 2 milhões para o projeto-piloto em 2026 é vista como um “sinal institucional importante”, mas insuficiente diante do potencial estratégico da ferramenta para o futuro do seguro rural brasileiro.
Na conclusão da nota técnica, o Observatório do Crédito e Seguro Rural afirma que as Resoluções nº 110 e nº 111/2026 inauguram “uma lógica sofisticada onde o subsídio premia quem reduz riscos de forma mensurável”. O documento aponta ainda que o desafio agora será consolidar o ZarcNM como a linguagem comum entre ciência, mercado e governo. “Esse é o futuro da agricultura do Brasil e terá capacidade de escalar muito nos próximos anos”, finaliza Loyola.