6 de August de 2026
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Especialistas defendem nova estratégia para ampliar a proteção climática no campo

  • 6/ agosto / 2026

Durante encontro promovido pela CNseg e FGV, representantes do mercado segurador apontaram o fortalecimento do seguro rural, a gestão de riscos e novos modelos de proteção como prioridades diante da intensificação dos eventos climáticos

Por Tany Souza

A necessidade de fortalecer o seguro rural como estratégia central de adaptação aos eventos climáticos extremos dominou o debate promovido pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Especialistas defendem que o investimento em inteligência de dados e a maior integração entre ciência e mercado são mais eficientes do que a renegociação de dívidas após desastres, reiterando que a ampliação da cobertura do setor é fundamental para proteger a economia diante da crescente frequência de secas e enchentes.

A diretora de Sustentabilidade da CNseg, Claudia Prates, ao abordar o seguro rural, chamou atenção para o desequilíbrio entre os recursos destinados à renegociação de dívidas após perdas climáticas e os investimentos voltados à proteção da produção. Na avaliação da executiva, a política pública ainda concentra esforços na recuperação financeira do produtor, em vez de estimular mecanismos preventivos de gestão de riscos. “Você refinancia com subsídio porque o agricultor não tem seguro, ele entra novamente no crédito e nunca sai desse ciclo. Precisamos segurar a produção, e não continuar refinanciando”, afirmou.

Segundo Joaquim Neto, superintendente de Produtos Agro da Tokio Marine, a discussão sobre mudanças climáticas e seguro rural passa por três fatores diretamente relacionados: a concentração da atividade agropecuária nos municípios brasileiros, o fortalecimento do mutualismo e o aumento da frequência dos eventos climáticos extremos.

O executivo destaca que, dos 5.570 municípios brasileiros, cerca de 90% têm menos de 50 mil habitantes e dependem da atividade agropecuária como principal motor da economia. “Em boa parte desses municípios, a atividade rural é praticamente a única fonte de geração de renda. Quando um evento climático atinge essas regiões, os impactos ultrapassam a porteira da fazenda e afetam toda a economia local”, afirmou.

Ao abordar o seguro rural, Joaquim chama atenção para um dos principais desafios do mercado: o enfraquecimento do princípio do mutualismo.

“O seguro funciona quando muitos contratam para que poucos, aqueles que sofrem perdas, recebam indenização. No seguro agrícola brasileiro, essa lógica deixou de existir. Poucos produtores contratam seguro e muitos desses poucos acabam sendo indenizados”, comentou.

Ele lembra que o mercado enfrentou a safra 2021/22, considerada um dos momentos mais críticos da história do seguro agrícola brasileiro. “As seguradoras buscam ampliar a comercialização do seguro em diferentes regiões, culturas e riscos para pulverizar a carteira. Mas, na safra 2021/22, tivemos seca severa nas culturas de inverno, seis episódios intensos de geada, granizo em diversas regiões e uma seca catastrófica na soja. As indenizações chegaram a R$ 10,6 bilhões”, afirmou.

Apesar do volume recorde de indenizações, Joaquim ressalta que a maior parte dos produtores permaneceu sem proteção. “Menos de 10% dos agricultores possuem seguro. Isso significa que cerca de 90% ficaram descobertos e, diante das perdas, tiveram como alternativas renegociar dívidas, vender propriedades ou abandonar a atividade. Quando isso acontece, não perde apenas o produtor. Perde a agricultura e perde o país.”

Soluções diferentes para perfis distintos de produtores

Segundo Felipe Leonato, líder de Água, Alimentos e Bebidas da Aon, a ampliação da proteção no campo passa por soluções distintas para diferentes perfis de produtores. “O pequeno e o médio produtor dificilmente terão acesso a soluções mais sofisticadas, como o seguro paramétrico. Embora esse modelo seja cada vez mais adequado para a gestão dos riscos climáticos, ele ainda exige um nível de sofisticação e uma escala que, muitas vezes, não fazem sentido para esse perfil de produtor”, afirmou.

Para os grandes produtores, especialmente os localizados no Centro-Oeste, o executivo avalia que a estratégia deve ir além do seguro agrícola tradicional. “Para esse perfil, a solução passa por uma gestão de riscos mais estruturada e pela contratação de seguros paramétricos, que já oferecem coberturas adequadas para culturas como soja e até mesmo cacau, que hoje também enfrenta riscos climáticos relevantes”, comentou.

Ciência e seguros caminham juntos

Segundo Ivani Benazzi, superintendente de Sustentabilidade da Bradesco Seguros, o enfrentamento das mudanças climáticas depende da integração entre ciência, políticas públicas e mercado segurador. As seguradoras têm capacidade para aperfeiçoar a precificação dos riscos e desenvolver modelos preditivos cada vez mais sofisticados, mas ressalta que a produção do conhecimento científico cabe à academia.

“As seguradoras podem ajudar na precificação dos riscos e no desenvolvimento de modelos preditivos, mas não somos cientistas. A academia produz esse conhecimento, e essa aproximação é fundamental. Somos muito ouvidos pelo mercado e podemos transformar essas informações em soluções”, afirmou.

Segundo ela, ampliar a cultura do seguro no Brasil depende de uma combinação entre educação financeira e políticas públicas. Para ela, a proteção securitária ainda não faz parte da rotina da população, que muitas vezes desconhece o custo-benefício desse tipo de instrumento.

Percepção de risco influencia a proteção

Segundo Isabel Ponce, Senior Underwriter Agriculture e CUO P&C Reinsurance da Swiss Re, a percepção de risco está diretamente relacionada à experiência de cada país com eventos climáticos extremos. Em nações como Chile e México, onde furacões, terremotos e outros desastres fazem parte da realidade, a cultura do seguro está mais consolidada, inclusive no setor público.

“Nesses países, governos e instituições públicas contratam fundos de catástrofe e outros mecanismos de proteção porque convivem com esses eventos de forma recorrente”, afirmou.

A diretora de Pesquisa e Inovação da FGV, Goret Paulo, destacou a importância da atuação integrada entre diferentes setores para reduzir as desigualdades agravadas pelas mudanças climáticas. “Precisamos trabalhar em conjunto em uma visão de longo prazo que traga um Brasil melhor para todos, fazendo com que as mudanças climáticas não acentuem as nossas diferenças, mas que as políticas realizadas as diminuam”, afirmou.

O encontro integrou a programação da CNseg na Semana do Clima de São Paulo, iniciativa dedicada a discutir financiamento climático, infraestrutura, ciência, agronegócio e gestão de riscos.