13 de August de 2026
Radar

El Niño pode pressionar custo do seguro rural em meio à baixa cobertura no campo

  • 12/ agosto / 2026

Possível retorno do El Niño aumenta a preocupação com a proteção das lavouras em um momento de baixa cobertura do seguro rural e dificuldades financeiras dos produtores

Por Redação

A perspectiva de um El Niño com impactos sobre a agricultura brasileira pode aumentar a pressão sobre o seguro rural em um momento de baixa cobertura no campo. Os riscos associados às alterações no regime de chuvas e às temperaturas tendem a ser incorporados à avaliação das seguradoras e resseguradoras, com possíveis reflexos sobre o custo e as condições das apólices. Ao mesmo tempo, a situação financeira dos produtores, marcada por crédito mais seletivo, margens reduzidas e endividamento, limita a demanda por novas contratações.

“O El Niño não chega sozinho. Ele encontra o produtor com crédito mais seletivo, margens pressionadas, endividamento elevado e cobertura securitária muito reduzida. O principal risco da safra não é apenas climático. É a combinação de maior volatilidade com menor capacidade financeira e institucional para absorver as perdas”, afirma Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).

Segundo Loyola, a ocorrência do fenômeno não significa necessariamente uma quebra generalizada da safra, mas as mudanças no volume e na distribuição das chuvas e nas temperaturas ampliam os riscos para diferentes culturas e regiões.

No Sul, as precipitações podem ficar acima da média, aumentando a possibilidade de encharcamento das lavouras e atrasos no plantio e na colheita de culturas como trigo, soja, milho e feijão. No Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o cenário pode ser de redução das chuvas e temperaturas mais elevadas, com possibilidade de replantio, falhas no desenvolvimento das culturas e maior risco de incêndios. Nessas regiões, soja, milho, algodão e pastagens estão entre as atividades que podem ser afetadas.

Risco pode alterar condições das apólices

A maior exposição climática também tende a entrar nos critérios utilizados pelo mercado para definir as condições do seguro rural. Segundo Loyola, “as seguradoras e resseguradoras tendem a rever município, cultura, época de plantio, tipo de solo, histórico de produtividade, nível de cobertura, manejo e concentração de exposição”, na hora de precificar os valores do seguro rural.

“Não existe, portanto, um ‘preço nacional do El Niño’. O ajuste poderá ser muito diferente entre regiões e culturas. Em alguns casos, a mudança aparecerá na taxa; em outros, na franquia, no limite de cobertura, na produtividade garantida ou simplesmente na disponibilidade de capacidade”, diz o coordenador do FGV Agro.

O presidente da Comissão Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Daniel Nascimento, porém, não espera aumento generalizado no preço das apólices. Segundo ele, parte relevante das contratações está concentrada na região Sul, onde historicamente as perdas mais intensas estão associadas aos períodos de La Niña.

O El Niño continua no radar das seguradoras, mas as companhias procuram administrar a exposição por meio de estratégias como diversificação geográfica e de produtos. “Se pegarmos os últimos 20 anos, em torno de 50% (das indenizações de seguro rural) foram pagos por conta de La Niña. Os outros 25% em anos neutros e 25% em anos de El Niño”, diz Nascimento. “Então, em volume de indenização para a seguradora, a La Niña causa mais prejuízo que o El Niño”.

Indenizações cresceram durante La Niña

Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que os maiores volumes de indenizações do seguro rural foram registrados durante o período de atuação da La Niña. Em 2021, os pagamentos cresceram 95,1%, alcançando R$ 7,2 bilhões. No ano seguinte, chegaram a R$ 10,5 bilhões, maior valor da série mencionada.

Apesar das diferenças entre os impactos dos fenômenos climáticos, Guilherme Rios, coordenador de produção agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), avalia que a conjuntura de riscos relacionada ao El Niño deverá ser considerada pelas seguradoras na precificação. Os efeitos sobre os preços, porém, podem aparecer principalmente em 2027, uma vez que as projeções indicam que o fenômeno poderá atingir seu ápice entre o fim deste ano e o início do próximo. “Com certeza, vamos ter aumento de custo do seguro. A sinistralidade pesa muito na formação do preço das apólices”, afirma Guilherme Rios.

Área coberta pelo PSR recua

A eventual pressão sobre os custos ocorre em um período de forte retração da cobertura subvencionada. Citando dados do governo federal, Rios afirma que a área atendida com recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) soma 741 mil hectares em 2026, volume 76,8% inferior ao registrado em 2025 e muito distante dos 13,67 milhões de hectares alcançados em 2021. “Se esse cenário continuar, (2026) seria o pior ano de cobertura desde 2016”, estima Rios.

Para ampliar a proteção dos produtores antes do início da safra de grãos, previsto para setembro, o representante da CNA defende a liberação dos recursos do PSR bloqueados pelo governo e a aprovação do Projeto de Lei 2.951/2024, em tramitação no Congresso Nacional, que prevê mudanças no sistema de seguro rural.

“O seguro rural precisa ser contratado pelo produtor antes do plantio, então seria importante liberar agora o recurso do PSR que foi contingenciado”, enfatiza.

Fonte: Globo Rural