Da lavoura ao silo: onde termina a proteção do seguro sobre a produção agrícola?
- 27/ agosto / 2026
Seguro agrícola acompanha a produção até a colheita, mas grãos armazenados, silos e estruturas ficam sujeitos a outros riscos e exigem coberturas específicas em um país que amplia a safra mais rapidamente do que sua capacidade de armazenagem
Por Tany Souza
O risco da produção agrícola não termina quando a colheitadeira sai do campo. Depois de enfrentar seca, excesso de chuva, granizo e outros eventos capazes de comprometer a lavoura, o produtor inicia uma nova etapa de exposição quando os grãos seguem para beneficiamento e armazenamento. É também nesse momento que muda a lógica da proteção securitária: o seguro agrícola está relacionado ao desenvolvimento da cultura até a colheita, enquanto o produto colhido, os silos, armazéns e demais estruturas podem exigir outras modalidades de seguro.
Essa transição ganha relevância diante de dois movimentos que avançam em direções diferentes. O Brasil aumenta sua produção e sua área cultivada, mas ainda convive com baixa cobertura do seguro rural e uma infraestrutura de armazenagem que não cresce na mesma velocidade da safra.
Dados divulgados pelo IBGE mostram que a capacidade disponível para armazenamento de grãos no Brasil alcançou 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, alta de 1,1%. O país chegou a 9.668 estabelecimentos armazenadores, e os silos permaneceram como a principal estrutura, com capacidade de 124,7 milhões de toneladas, equivalente a 53,3% da capacidade útil total.
Apesar do crescimento, a ampliação da capacidade estática segue abaixo do necessário para acompanhar o ritmo da produção. Segundo a Kepler Weber, líder na América Latina em soluções para armazenagem, movimentação de grãos e termometria digital, a produção nacional de grãos vem crescendo a uma taxa anual composta de 6,7% desde 2016.
“Os números evidenciam que os investimentos em armazenagem ainda não acompanham a evolução da produção agrícola brasileira. Esse descompasso gera custos elevados para o país e para os produtores, que muitas vezes são obrigados a armazenar grãos a céu aberto, comprometendo a qualidade e aumentando as perdas”, afirma o CEO da Kepler Weber, Bernardo Nogueira.
A diferença tende a permanecer relevante diante do tamanho da safra. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou sua estimativa para a produção de 2025/26 para 358,6 milhões de toneladas, acréscimo de 600 mil toneladas em relação à safra anterior. Já a Cogo Inteligência em Agronegócio estima que seriam necessários cerca de R$ 148 bilhões em investimentos para eliminar o déficit de armazenagem e criar capacidade suficiente para absorver toda a produção prevista. Aproximadamente 135 milhões de toneladas poderiam ficar sem espaço adequado para armazenamento.
A proteção muda quando o grão deixa a lavoura
A necessidade de compreender essa passagem entre diferentes riscos ocorre em um período de baixa proteção da própria produção. Segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), o agronegócio, responsável por mais de 23% do PIB nacional, está entre os setores mais afetados pelas mudanças climáticas. Secas prolongadas e excesso de chuvas vêm atingindo os produtores enquanto a cobertura do seguro rural retrocede, em meio à instabilidade orçamentária e à insuficiência dos recursos destinados à subvenção.
Dados reunidos pela CNseg também mostram a evolução das perdas associadas aos eventos climáticos. O indicador apresentado pela entidade estava em 32,1% em 2015, chegou a 81,9% em 2022 e permaneceu em 60,3% em 2023, antes de recuar para 31,5% em 2024.
Ao mesmo tempo, a expansão da agricultura não foi acompanhada na mesma proporção pela proteção securitária. Entre 2015 e 2025, a área plantada brasileira passou de 78,1 milhões para 97,8 milhões de hectares, crescimento de aproximadamente 25%, enquanto a área coberta pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) ficou em 3,2 milhões de hectares em 2025. A taxa de cobertura, que havia alcançado 16,3% em 2021, recuou para 3,3% no último ano da série.
O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, afirma que o Seguro Rural é uma ferramenta eficiente para garantir a resiliência e a sustentabilidade dos produtores diante das perdas causadas por eventos climáticos extremos. “A área segurada no Brasil ainda é muito baixa se comparada a países como os Estados Unidos, o que deixa milhares de produtores expostos e podendo perder tudo em uma única safra”, disse durante a COP30.
Os números mais recentes do mercado também mostram retração. Segundo a CNseg, entre janeiro e maio, a arrecadação do seguro agrícola somou R$ 1,3 bilhão, queda de 13,9%, enquanto as indenizações chegaram a R$ 492 milhões, redução de 55,4%.
Para o produtor que possui seguro agrícola, entretanto, existe outra questão que precisa ser observada: a proteção contratada para a lavoura não acompanha necessariamente o produto durante todas as etapas seguintes.
Segundo Mauricio Masferrer, diretor executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros e Managing Director da Allianz Commercial Brasil, o seguro Cultivo está diretamente relacionado à produção na lavoura, com cobertura até a fase de colheita. “Depois desse período, os grãos podem ser protegidos por produtos dos ramos de Benfeitorias e Produtos Agropecuários e de Penhor Rural, destinados à propriedade rural. Essas modalidades podem contemplar os grãos durante etapas de beneficiamento, como limpeza e secagem, e no armazenamento em silos da propriedade contratada.”
Ele explica que “a cobertura pode alcançar também construções, instalações e equipamentos fixos existentes no local, com proteção para eventos previstos na apólice, como incêndio, danos elétricos e vendaval. Máquinas como tratores e colheitadeiras, por sua vez, podem ser contratadas individualmente por meio do seguro de Equipamentos Agrícolas”.
Adailton Dias, diretor executivo de Subscrição, Gerenciamento de Risco e Resseguro na Sompo, também aponta a colheita como uma mudança na natureza da exposição. “Assim, a cobertura do seguro agrícola normalmente encontra seu marco final na colheita da produção segurada.” Depois da retirada dos grãos, entram riscos relacionados à armazenagem, transporte, incêndio, explosão e eventos climáticos sobre as estruturas, que demandam soluções securitárias distintas.
O cuidado é ainda maior quando o produto segue para instalações de terceiros. Segundo Dias, o produtor não deve presumir que a produção esteja automaticamente protegida após a entrega. É necessário verificar quais riscos permanecem sob sua responsabilidade e quais estão efetivamente cobertos pela empresa armazenadora.
Martín Pacheco, superintendente de Agronegócios da Sancor Seguros, explica que existem alternativas dentro dos seguros patrimoniais. “Para grãos armazenados em silos, existem alternativas de seguros associadas aos seguros patrimoniais, que garantem a estrutura, neste caso os silos, com possibilidade de incluir cobertura para o conteúdo, ou seja, os grãos.”
Segundo ele, as coberturas destinadas aos produtos armazenados derivam daquelas contratadas para a estrutura. Em um incêndio, por exemplo, o seguro pode proteger o silo, enquanto os grãos existentes no local podem demandar a contratação de cobertura adicional para as mercadorias.
Mais grãos armazenados também ampliam a exposição
O déficit de armazenagem acrescenta uma camada importante à gestão do risco. Quanto maior o volume de grãos e o período de permanência nas estruturas, maior a necessidade de atenção às condições operacionais, manutenção e prevenção.
Para Matheus Fontanelli, diretor Comercial de Cooperativas e Agronegócios da AXA, a pressão sobre a capacidade de armazenagem também modifica a avaliação das seguradoras sobre essas operações. “Para o mercado segurador, essa combinação de alta pressão operacional com eventos climáticos cada vez mais frequentes altera drasticamente a percepção de risco e exige uma abordagem de proteção cada vez mais técnica e integrada.”
Entre os riscos observados estão incêndios e explosões provocados pelo acúmulo de poeira orgânica em ambientes confinados, além de problemas relacionados à umidade dos grãos, que podem desencadear processos de fermentação e autocombustão. Eventos climáticos também aumentam a exposição das estruturas e dos produtos armazenados. Fontanelli também chama atenção para o efeito dos eventos climáticos sobre as estruturas de armazenagem. “Danos às coberturas e estruturas físicas expõem imediatamente o produto depositado à umidade e à contaminação, transformando um sinistro patrimonial em uma perda severa de mercadoria.”
Fabio Damasceno, diretor de seguro rural da Mapfre, explica que incêndios estão entre os principais riscos observados nas unidades armazenadoras, inclusive pela presença de poeira da soja, altamente inflamável, que pode provocar grandes danos em ambiente fechado diante de uma fonte de ignição.
“A análise hoje é integrada. Não avaliamos o risco de incêndio sem entender o manejo de poeira, o sistema de ventilação e o acúmulo de resíduos. Quando um silo apresenta problemas, o prejuízo atinge a cadeia inteira, da colheita à comercialização. É isso que tentamos transmitir ao produtor, o entendimento de que um sinistro num silo compromete a rentabilidade da safra, não só o equipamento.”
O recorde da produção e a limitação da capacidade disponível também interferem nessa avaliação. Segundo Damasceno, silos, armazéns e estruturas improvisadas vêm recebendo volumes elevados e permanecendo ocupados por períodos mais longos. “Uma estrutura operando no limite é uma estrutura em que qualquer falha tem consequências maiores. O grão fica mais tempo estocado, esperando escoamento e, com isso, cresce a probabilidade de algo dar errado.”
Esse quadro já influencia a subscrição. As seguradoras vêm exigindo informações mais detalhadas sobre controles operacionais, programas de gerenciamento de riscos, manutenção preventiva e conservação das estruturas. Temperatura e umidade dos grãos também passaram a ter maior relevância, já que o monitoramento dessas variáveis ajuda a reduzir deterioração, formação de focos de calor, combustão espontânea e incêndios.
“Franquias e precificação refletem o aumento de exposição e frequência de sinistros. Mas a lógica é que o produtor que investe em prevenção e demonstra gestão de risco madura encontra condições melhores na negociação. Não é punição, mas um reconhecimento de que operações bem geridas representam menos risco.”
A discussão sobre proteção da safra, portanto, não se encerra com a contratação do seguro agrícola. O risco muda à medida que o produto avança pela cadeia, e identificar essa transição evita que o produtor descubra somente no momento de um sinistro que determinada etapa, estrutura ou estoque não estava contemplado pela cobertura contratada.
Para Damasceno, essa integração precisa acompanhar todo o ciclo produtivo. “O caminho é a integração entre os produtos. Na Mapfre, trabalhamos para que o corretor desenhe uma proteção que acompanhe o ciclo completo, do plantio à comercialização. O agrícola cobre a lavoura. O patrimonial cobre a estrutura e o estoque. O produtor precisa dos dois, e precisa entender que um não substitui o outro.”