18 de January de 2026
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Crise geopolítica na Venezuela reacende alerta no agronegócio brasileiro

  • 13/ janeiro / 2026

Especialistas avaliam que a operação dos EUA tende a gerar impactos indiretos ao agro, com reflexos em energia, logística, contratos e exigências regulatórias

Por Tany Souza

A recente operação dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, acendeu um sinal de alerta no agronegócio brasileiro sobre os efeitos indiretos de crises geopolíticas nas cadeias globais de produção, logística e comércio. Embora não haja impacto bilateral direto relevante, o setor agropecuário pode ser afetado por aumento de custos, maior volatilidade e intensificação de exigências regulatórias, segundo especialistas.

O episódio reforça a necessidade de o agronegócio incorporar o risco geopolítico como um fator estrutural de planejamento, exigindo estratégias integradas de gestão de custos, contratos mais resilientes, planejamento logístico e fortalecimento de práticas de compliance. Esses elementos tornam-se essenciais para preservar margens, garantir o escoamento da produção e manter a competitividade do agro brasileiro em um ambiente global cada vez mais instável.

Para André Aidar, sócio e head de Direito do Agronegócio do Lara Martins Advogados, a reconfiguração da relação entre Estados Unidos e Venezuela tende a gerar reflexos econômicos indiretos, porém relevantes, para o agronegócio nacional. “Alterações nos fluxos de energia, commodities e insumos estratégicos afetam preços internacionais, logística e competitividade. Tensões prolongadas podem reforçar o Brasil como fornecedor confiável de alimentos, mas também ampliam a exposição a volatilidade cambial, custos de frete, combustíveis e fertilizantes”, avalia.

Segundo Aidar, o cenário exige atenção redobrada à gestão de riscos no agro, com diversificação de mercados, revisão contratual e monitoramento constante de sanções, barreiras comerciais e exigências sanitárias, que podem sofrer alterações rápidas em contextos de instabilidade internacional.

Na mesma linha, Adhemar Michelin Filho, sócio da Michelin Sociedade de Advogados, destaca que os principais impactos para o agronegócio tendem a ocorrer por meio da energia e da logística. “Ruídos geopolíticos costumam aumentar a volatilidade do petróleo, pressionando diesel, fretes e custos logísticos no Brasil. Isso repercute diretamente em cadeias como a de proteína animal, onde transporte, refrigeração e distribuição têm peso relevante”, explica.

Michelin também chama atenção para o aumento das exigências de compliance e rastreabilidade nas cadeias globais que envolvem o agronegócio. “Mesmo empresas que não negociam com a Venezuela podem enfrentar maior rigor em due diligence, checagem de contrapartes e exigências de bancos e seguradoras, o que impacta prazos, contratos e liquidez”, afirma.

Risco geopolítico na América Latina e reflexos para o agro

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos adicionou um novo e relevante fator de instabilidade ao cenário econômico internacional, com impactos que extrapolam o confronto militar e atingem diretamente a percepção de risco, a volatilidade dos mercados financeiros e o comportamento das commodities agrícolas. A avaliação é do professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib.

Até o momento, os dados indicam um cenário fragmentado, com interrupções pontuais de embarques, retomada parcial de exportações aos Estados Unidos e manutenção de carregamentos rumo à China, o que reduz a percepção de um choque imediato de oferta. Ainda assim, o professor alerta para canais menos visíveis, mas potencialmente relevantes para o agronegócio e a inflação global. “Mesmo sem uma disparada do Brent, a inflação pode reagir via spreads de refino, prêmios regionais, seguros marítimos e custo de financiamento das cargas, afetando rapidamente transportes e alimentos”, destaca.

Para o Brasil, a análise setorial aponta para uma redistribuição de ganhos e perdas, com reflexos diretos no agronegócio. Exportadores de commodities não energéticas, como mineração, papel e celulose e segmentos do agro, tendem a ganhar competitividade com um real mais depreciado. Em contrapartida, setores dependentes do consumo interno e do crédito podem ser penalizados pela piora da confiança e pelo aumento do custo financeiro. “Aéreas e logística ficam especialmente expostas se houver deterioração simultânea de câmbio e custos de combustíveis”, acrescenta.