Chuvas irregulares desafiam avanço da soja no Centro-Oeste, enquanto excesso de umidade preocupa o Sul
- 24/ setembro / 2026
Safra 2026/27 começa com 0,73% da área nacional semeada, segundo levantamento da Pátria Agronegócios, e efeitos do El Niño podem impor condições distintas ao produtor nas principais regiões de cultivo
Por Redação
O produtor de soja inicia a safra 2026/27 diante de um cenário climático marcado por contrastes. Enquanto a irregularidade das chuvas pode limitar o avanço das máquinas em importantes áreas do Centro-Oeste, o excesso de umidade começa a preocupar no Sul. A expectativa é que essas diferenças fiquem mais evidentes em outubro, período em que se concentra uma parcela importante da janela de plantio no país.
O El Niño está no centro das atenções. O fenômeno tende a reduzir as precipitações no Centro-Norte do Brasil e favorecer volumes maiores de chuva em áreas do Sul, criando condições bastante diferentes para os produtores conforme a localização das lavouras.
Em Mato Grosso, maior produtor nacional da oleaginosa, a semeadura alcançou 0,8% da área, ante 0,6% no mesmo período do ano passado, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A estatal informa que os primeiros trabalhos ocorrem principalmente em áreas irrigadas por pivô central. Nas lavouras de sequeiro, o avanço ainda é pequeno, uma vez que as precipitações registradas não foram suficientes para recuperar o baixo armazenamento de água no solo.
O início de setembro chegou a registrar chuvas que favoreceram os trabalhos em algumas regiões de Mato Grosso. Na segunda quinzena do mês, porém, as precipitações cessaram, comportamento que já era esperado diante da influência do El Niño, segundo Ludmila Camparotto, meteorologista da Rural Clima.
“Uma frente fria que vem do Sul pode levar instabilidades para sul e oeste de Mato Grosso em forma de pancadas, favorecendo o avanço do plantio. Essas chuvas, porém, serão irregulares”, observa Camparotto.
No Paraná, segundo maior produtor brasileiro de soja e primeiro Estado a iniciar a semeadura nesta temporada, o desafio é outro. O plantio chegou a 2% da área projetada para 2026/27, abaixo dos 3% registrados no mesmo período do ciclo anterior, conforme a Conab.
“O Paraná vem com bastante umidade este ano, e neste momento o excesso de chuva pode sim atrapalhar a continuidade do plantio nos próximos dias”, destaca a meteorologista da Rural Clima.
Além de Mato Grosso e Paraná, produtores de Goiás e Mato Grosso do Sul também já iniciaram a semeadura, segundo Matheus Pereira, diretor da Pátria Agronegócios.
Apesar das condições climáticas, ele avalia que eventuais atrasos observados até agora não representam motivo de preocupação, principalmente porque uma parte relevante do plantio ainda ocorrerá nas próximas semanas. “A maior parte da janela [de plantio] se concentra em meados de outubro. Até agora tivemos muitas chuvas espaçadas, mas ainda é cedo para falar em problemas por conta do clima”, afirma.
O primeiro levantamento da Pátria Agronegócios para a safra 2026/27 mostra que 0,73% da área nacional de soja já foi semeada, ligeiramente acima dos 0,64% registrados há um ano. A consultoria estima que o cultivo da oleaginosa alcance 49,38 milhões de hectares nesta temporada.
A atenção agora se volta para a distribuição das precipitações em outubro. A expectativa da Rural Clima é de que as chuvas aumentem na transição de setembro para o próximo mês, mas sem regularidade suficiente para garantir as mesmas condições de plantio em todas as regiões.
Camparotto avalia que essa irregularidade poderá afetar especialmente Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul. “Na virada de setembro para outubro teremos o aumento das chuvas, que serão mais frequentes em algumas localidades e em outras não, onde o produtor terá que esperar um pouco mais para conseguir semear. É um cenário [de chuvas irregulares] que a gente ainda vai ver muito este ano”, destaca.
Assim, embora os números iniciais ainda não indiquem um atraso relevante no plantio nacional, o comportamento das chuvas nas próximas semanas será determinante para o avanço da safra. Para o produtor, o desafio será acompanhar as condições locais de umidade do solo e ajustar a entrada das máquinas à realidade de cada região, em uma temporada na qual o El Niño tende a produzir efeitos bastante distintos entre o Centro-Oeste e o Sul.
Fonte: Globo Rural