Acordo Mercosul–União Europeia inaugura nova etapa para o agro sul-americano
- 22/ janeiro / 2026
Tratado prevê redução tarifária ampla e cria ambiente estratégico de longo prazo para exportações
Fonte: Agrolink
Firmado em janeiro de 2026, após 25 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia marca um ponto de inflexão nas relações comerciais entre os blocos e inaugura um novo ciclo de oportunidades para o agronegócio da América do Sul. O tratado estabelece a eliminação tarifária progressiva de mais de 90% dos produtos negociados, dando origem à maior área de livre comércio do mundo em termos de PIB e população.
Segundo análise do Itaú BBA, o acordo tem relevância estratégica para o Brasil, que atualmente destina cerca de 15% da receita externa do agro à União Europeia — atrás apenas da China, responsável por 34%. Com o novo arranjo comercial, o país tende a reduzir a concentração das exportações no mercado asiático e ampliar a diversificação de destinos.
Pelos termos do tratado, o Mercosul eliminará tarifas sobre 91% dos produtos europeus ao longo de até 15 anos, enquanto a União Europeia fará o mesmo com 95% dos bens originários do Mercosul em um prazo máximo de 12 anos. No segmento agrícola, porém, a abertura será gradual e seletiva. Produtos considerados sensíveis pelos europeus — como carnes, açúcar, arroz e etanol — estarão sujeitos a cotas e liberalização parcial.
Mesmo com essas restrições, há ganhos relevantes previstos. Itens com menor sensibilidade terão acesso ampliado ao mercado europeu. Café, frutas e sucos estão entre os principais beneficiados. No caso do café torrado, moído e solúvel, as tarifas serão eliminadas de forma escalonada até zerar em quatro anos. “Isso tende a elevar a competitividade do Brasil frente a países que já contam com acesso preferencial, como o Vietnã”, avalia o Itaú BBA.
Para as frutas frescas, o acordo prevê abertura mais ampla. Produtos como uva, com tarifa zero imediata, além de abacate, melão, maçã e limão, não terão limites de volume, o que pode favorecer produtores interessados em ampliar presença no mercado europeu com menor barreira tarifária.
Já no grupo dos produtos sujeitos a cotas, carnes e etanol terão tratamento específico. O frango contará com um volume adicional de 180 mil toneladas com tarifa zero, a ser implementado gradualmente ao longo de seis anos, além das cotas já previstas pela OMC. A carne bovina poderá acessar uma cota de 99 mil toneladas com tarifa reduzida de 7,5%, somada à Cota Hilton, que garante tarifa zero para cortes premium.
O acordo também incorpora mecanismos de proteção ao mercado europeu. A União Europeia poderá acionar cláusulas de salvaguarda caso as importações do Mercosul ultrapassem 5% dos volumes pactuados ou provoquem queda de 5% nos preços internos. A medida busca resguardar setores agrícolas considerados vulneráveis, especialmente em países como França e Irlanda.
O Itaú BBA ressalta que os efeitos do tratado não serão imediatos. As cotas, os cronogramas de liberalização e as exigências ambientais tendem a limitar impactos no curto prazo. Ao longo do tempo, porém, o acordo pode estimular investimentos logísticos, agregação de valor e maior integração do agro brasileiro às cadeias globais.
Outro ponto central será a adaptação a padrões mais rigorosos de sustentabilidade. Exigências relacionadas à rastreabilidade, combate ao desmatamento e compromissos ambientais passam a ser determinantes para a manutenção do acesso preferencial ao mercado europeu.
Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos dos países envolvidos. Na União Europeia, apenas o capítulo comercial depende da aprovação do Parlamento Europeu, o que pode acelerar o processo. No Mercosul, cada país deverá concluir sua tramitação interna.
Na avaliação do Itaú BBA, trata-se de um movimento estratégico de longo prazo que reposiciona o agronegócio do Cone Sul no comércio global. O desafio, agora, é transformar o acordo em vantagem competitiva concreta, com planejamento, qualificação produtiva e sustentabilidade no centro da estratégia.