27 de October de 2026
Radar

Dívidas rurais ultrapassam R$ 205 bilhões em operações problemáticas e pressionam futuro governo

  • 27/ outubro / 2026

Com inadimplência recorde e queda no acesso ao crédito, produtores cobram soluções estruturais para o endividamento

Por Redação

O endividamento dos produtores rurais deverá ocupar lugar de destaque na agenda do próximo presidente da República. Com inadimplência recorde, dificuldades de acesso ao financiamento e margens de produção pressionadas, o setor agropecuário cobra uma solução que permita reorganizar os passivos e recuperar a capacidade de investimento nas propriedades.

Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, publicada em 22 de outubro de 2026, a inadimplência do crédito rural entre pessoas físicas chegou a 9,7%, enquanto o saldo de operações problemáticas nos bancos ultrapassou R$ 205 bilhões. O levantamento não inclui a totalidade das dívidas privadas dos produtores com fornecedores, tradings e revendas de insumos.

Embora a previsão para a safra de grãos 2026/27 seja de um recorde de 367,1 milhões de toneladas, o acesso às linhas de crédito rural e às Cédulas de Produto Rural (CPRs) recuou quase 30% neste início de temporada. A restrição preocupa produtores que dependem de financiamento para custear a produção e manter suas atividades.

Uma das propostas apoiadas por entidades do agronegócio é o Projeto de Lei 5.122/2023, aprovado pelo Senado e ainda em tramitação na Câmara dos Deputados. O texto prevê a utilização de recursos do Fundo Social do Pré-Sal e de outros fundos para financiar a renegociação de dívidas rurais.

A proposta inicial previa R$ 30 bilhões para refinanciamentos, com juros de até 7,5% ao ano e prazos alongados. A medida é defendida por representantes do setor, mas enfrenta questionamentos sobre a disponibilidade dos recursos e seus impactos fiscais.

O tema também entrou na campanha presidencial. O programa de Flávio Bolsonaro (PL) menciona a reorganização das dívidas rurais por meio da securitização, sem detalhar o mecanismo. Já o programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não apresenta uma nova proposta específica de renegociação.

A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) encaminhou aos candidatos uma carta solicitando uma solução estrutural para o estoque de dívidas, inclusive com mecanismos de securitização. Para a entidade, simplesmente prorrogar vencimentos não resolve o problema quando as parcelas continuam incompatíveis com a geração de caixa das propriedades.

MP renegociou R$ 10,1 bilhões de potencial de R$ 120 bilhões

A Medida Provisória 1.376/2026, publicada em julho, ainda apresenta resultados abaixo das expectativas do setor. Segundo balanço do Banco Central de 20 de outubro, pouco mais de R$ 10,1 bilhões haviam sido renegociados, menos de 10% do potencial estimado de R$ 120 bilhões.

A medida poderá perder a validade em 12 de novembro caso não seja votada pelo Congresso Nacional. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) busca alterações para ampliar seu alcance, mas o andamento da proposta permanece incerto.

O vice-presidente de Agronegócio e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, também alertou para a expectativa de uma eventual anistia de dívidas após as eleições, considerada por ele praticamente inviável diante dos volumes envolvidos.

Para o produtor rural, o desafio ultrapassa o alongamento dos financiamentos. A recuperação da capacidade de pagamento depende de condições compatíveis com a geração de receita da atividade, acesso ao crédito e instrumentos que reduzam a exposição a perdas.

Nesse contexto, o fortalecimento do seguro rural também integra a discussão sobre a sustentabilidade financeira do agronegócio. A proteção contra eventos cobertos pode ajudar a preservar parte da receita comprometida por perdas produtivas, embora não substitua medidas de reestruturação das dívidas.

A dimensão do endividamento mostra que a próxima gestão federal será cobrada não apenas por novas renegociações, mas por condições que permitam aos produtores financiar suas safras e manter a continuidade dos negócios.

Fonte: Valor Econômico