22 de September de 2026
Estudos

Super El Niño terá impactos desiguais no agro e exige maior proteção, aponta Aon

  • 22/ setembro / 2026

Estudo identifica maior exposição para trigo, soja e milho de primeira safra no Sul e café no Sudeste, enquanto diferenças regionais e de calendário exigem estratégias específicas de proteção para preservar liquidez e acesso ao crédito

Por Redação

Os efeitos do Super El Niño sobre a safra brasileira 2026/27 devem variar de forma significativa entre culturas, regiões e períodos do ciclo produtivo. É o que aponta o relatório Climate Risk – El Niño Outlook for Brazil, da Aon, que mapeia as principais exposições do agronegócio ao fenômeno e alerta para a necessidade de transformar as projeções climáticas em estratégias de gestão e transferência de riscos.

A análise afasta uma leitura homogênea do El Niño para o país. Enquanto o Sul concentra algumas das principais exposições, especialmente em trigo, milho de primeira safra e soja, áreas do Centro-Oeste podem encontrar condições mais favoráveis para determinadas lavouras. Para o produtor e para o mercado segurador, o impacto dependerá não apenas da intensidade do fenômeno, mas da localização da propriedade, da cultura e do estágio de desenvolvimento da lavoura no momento em que os eventos climáticos ocorrerem.

Segundo projeções do Centro de Previsão Climática e da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (CPC/NOAA) consideradas pelo relatório, o fenômeno deve se estender até abril de 2027, com 95% de chance de atingir seu pico, na categoria de “Super El Niño”, entre outubro e dezembro de 2026.

Trigo, café, soja e milho terão exposições diferentes

Entre as culturas analisadas, o trigo apresenta o risco mais imediato para a rentabilidade. A colheita no Sul, responsável por aproximadamente 80% da produção brasileira, estimada em 7,54 milhões de toneladas, coincide com o período projetado de maior intensidade do fenômeno, no quarto trimestre de 2026.

O excesso de umidade pode aumentar a ocorrência de germinação pré-colheita, doenças fúngicas e perda de valor comercial, com reflexos diretos sobre a receita do produtor. O histórico levantado pela Aon reforça a exposição: no Super El Niño de 2015/16, o trigo registrou o maior volume anual de perdas de sua série histórica de seguros, com frequência e severidade dos sinistros concentradas no Rio Grande do Sul. A região também acumulou mais de 110 dos 220 eventos de perdas registrados entre 2000 e 2021.

No Sudeste, o relatório coloca a cafeicultura em outra zona de atenção. Eventos de El Niño moderados a fortes tendem a favorecer ondas de calor e mudanças no regime de precipitação entre o último trimestre deste ano e o início de 2027.

Em Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, estresse térmico e hídrico durante fases sensíveis, como florada e enchimento dos grãos, podem afetar o rendimento das lavouras. Segundo o histórico analisado, episódios anteriores de seca e calor intenso provocaram reduções entre 20% e 30% na produção, em relação ao ciclo anterior, em diversos municípios, com perdas de receita superiores a R$ 1 bilhão em algumas temporadas.

Para a soja, o cenário é mais heterogêneo. No Rio Grande do Sul, a maior exposição está associada ao risco de encharcamento entre outubro de 2026 e fevereiro de 2027. No Centro-Oeste, porém, a perspectiva é diferente. Mato Grosso, responsável por cerca de 30% da produção nacional, pode ter chuvas de verão mais regulares entre os últimos três meses deste ano e o primeiro trimestre de 2027. Essa condição reduziria a exposição à seca severa e poderia contribuir para sustentar a produtividade média brasileira.

O calendário também diferencia os riscos para o milho. A primeira safra no Sul terá a floração exposta ao período de maior instabilidade e possibilidade de tempestades de granizo entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Já o milho segunda safra, responsável por aproximadamente 80% da produção nacional, tende a atravessar sua fase reprodutiva mais sensível entre abril e maio de 2027, quando o El Niño deverá estar em processo de dissipação.

Seguro e transferência de risco entram na estratégia financeira

O relatório também relaciona o risco climático à exposição financeira do agronegócio. Em 2024, soja e milho de primeira safra, classificados como grãos de verão pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), concentraram aproximadamente R$ 525 milhões em subvenção, equivalentes a 55% do orçamento total do programa.

O dado evidencia, segundo a análise, a importância de observar onde estão concentradas as carteiras seguradas, quais culturas possuem proteção e em qual fase de desenvolvimento estarão quando os eventos climáticos ocorrerem.

“Os impactos do clima já não se limitam à operação agrícola. Eles afetam liquidez, capacidade de financiamento e criação de valor ao longo de toda a cadeia. Por isso, a gestão moderna do risco climático exige uma abordagem que combine inteligência analítica, transferência de risco e acesso a novas fontes de capital, permitindo que empresas, instituições financeiras e participantes do mercado preservem seus balanços e mantenham sua capacidade de crescimento mesmo diante de cenários extremos”, diz Beatriz Protásio, CEO para Resseguros da Aon no Brasil.

Entre as alternativas disponíveis, o estudo chama atenção para soluções que podem responder a riscos climáticos específicos e complementar as coberturas tradicionais. “Já existem ferramentas no mercado, como soluções paramétricas, que são capazes de responder a eventos climáticos específicos, proporcionando maior previsibilidade e rapidez no pagamento das indenizações. O caminho mais eficiente não é buscar uma única cobertura, mas construir uma estratégia de resiliência climática”, explica a Protásio.

O planejamento também precisa ultrapassar uma única safra. O relatório ressalta que episódios de Super El Niño são historicamente sucedidos por eventos de La Niña. Por isso, programas plurianuais de proteção podem ser importantes para antecipar uma eventual elevação do risco de seca no Centro-Oeste a partir da safra 2027/28.

A análise da Aon se estende ainda ao Norte e Nordeste. Nessas regiões, o El Niño pode ampliar os períodos de estiagem entre junho e março e elevar a incidência de queimadas em até 40% em relação à média histórica. O estresse hidrológico também exige atenção aos níveis dos rios utilizados para navegação e ao escoamento de grãos pelo Arco Norte.

Em Rondônia, o histórico apresentado no relatório mostra que períodos de seca já provocaram perdas entre 15% e 25% na produção de café e milho nos municípios mais atingidos. No semiárido nordestino, episódios severos levaram lavouras de sequeiro a registrar quedas de 30% a 50% em relação à média dos cinco anos anteriores.

A dimensão econômica dos extremos climáticos também aparece no histórico recente. “O El Niño de 2023/24 foi apontado como o principal fator atmosférico associado às enchentes catastróficas que atingiram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024. As perdas econômicas foram estimadas em aproximadamente R$ 75 bilhões. O clima deixou de ser uma preocupação “distante” e passou a influenciar diretamente decisões técnicas e alocação de capital”, afirma a especialista.

Diante das projeções para 2026/27, o relatório da Aon recomenda cinco ações principais:

  • Revisar a concentração de exposição no Sul, especialmente em trigo, milho de primeira safra e soja;
  • Monitorar as chuvas acima da média entre outubro de 2026 e fevereiro de 2027;
  • Avaliar as acumulações de risco por estado, produto e estágio de desenvolvimento das lavouras;
  • Realizar testes de estresse considerando cenários de perdas simultâneas no Sul;
  • Utilizar os indicadores de ENSO como sinal complementar de alerta antecipado, e não como gatilho isolado para decisões de subscrição.

A principal mensagem do relatório é que o tamanho do risco não será determinado apenas pela intensidade do Super El Niño. A coincidência entre clima, localização, cultura, calendário agrícola e concentração das exposições é que poderá transformar o fenômeno em perda produtiva e financeira.

Para produtores, seguradoras, resseguradoras e instituições financeiras, antecipar essas diferenças permite ajustar coberturas e estratégias de transferência de risco antes da ocorrência dos eventos. Em uma safra marcada por exposições assimétricas, a gestão do risco climático passa, portanto, pela capacidade de saber não apenas o que pode acontecer, mas onde, quando e sobre qual produção o impacto poderá ser maior.