20 de September de 2026
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Não existe bala de prata

  • 18/ setembro / 2026

Como a biotecnologia vem ganhando espaço nas estratégias de manejo diante de um cenário de maior pressão climática, custos elevados de produção e volatilidade de preços

Por Sheilla Albuquerque*

Existe sim um sistema que funciona e que pode melhorar sua resiliência a cada safra. Quando uma safra termina, o produtor não avalia uma tecnologia apenas pelo resultado de uma área da lavoura. Ele observa a resposta da lavoura, o comportamento diante do clima, a compatibilidade com o manejo e a segurança de encontrar o mesmo padrão de qualidade na próxima compra. Essa análise ficou mais rigorosa. 

Com crédito seletivo, custos elevados e margens pressionadas, o agricultor não deixou de investir em tecnologia, mas passou a exigir mais dela. Chuvas irregulares, ondas de calor e secas prolongadas também reduziram o espaço para decisões baseadas apenas no histórico da propriedade. 

As mudanças climáticas tornam esse trabalho mais complexo. Temperatura e umidade interferem na sobrevivência e na atividade dos microrganismos. O mesmo produto pode responder de maneira diferente sob calor excessivo, solo seco ou chuva intensa. Ensaios conduzidos apenas em condições favoráveis já não bastam. Agora, é preciso testar em mais ambientes, comparar safras e conhecer os limites de cada tecnologia.

Outro erro que pode tornar ainda mais complexa a gestão do solo é colocar químicos e biológicos em lados opostos. O produtor não administra uma disputa entre categorias, mas um sistema produtivo e, em muitos casos, a melhor resposta está na integração das ferramentas, combinando velocidade de controle, diferentes mecanismos de ação e menor pressão de seleção por resistência.

Os bioinsumos tampouco corrigem, sozinhos, todos os problemas de uma área ou anulam os efeitos de uma seca severa. Mas podem integrar estratégias de maior resiliência, pelo fortalecimento radicular, pela absorção de nutrientes, pelo controle de patógenos ou pelo apoio às respostas fisiológicas das plantas ao estresse.

Esse efeito depende do microrganismo, da formulação, do posicionamento e das condições da lavoura. Associar qualquer produto biológico, de forma genérica, à resiliência climática simplifica uma discussão que precisa ser técnica.

Não se trata de produzir mais, pois a capacidade industrial sem controle de qualidade amplia o risco em maior escala. Pesquisa precisa partir de problemas agronômicos concretos e chegar ao campo com protocolos que mostrem onde está o benefício e até onde ele vai. E essa relação com o produtor é decisiva.

Muitas vezes, a recomendação mais responsável não é acrescentar um produto, mas rever o posicionamento, a aplicação ou algum fator do sistema que esteja limitando a resposta. É nesse contato que a indústria também aprende.
 

*Sheilla Albuquerque é CEO da Vitalforce, empresa brasileira que atua no desenvolvimento de bioinsumos e fertilizantes especiais voltados à produtividade e à saúde do solo. Com trajetória no agronegócio e forte atuação em inovação tecnológica para a agricultura tropical, lidera iniciativas que conectam ciência, natureza e eficiência produtiva no campo. À frente da Vitalforce, participa da formulação de estratégias de crescimento da companhia, do desenvolvimento de novas soluções biológicas e do diálogo com o setor agro sobre sustentabilidade, resiliência climática e competitividade da agricultura brasileira.