Seguro rural precisa ganhar escala para reduzir custo e ampliar proteção ao produtor
- 14/ setembro / 2026
Debate sobre El Niño destaca seguro como instrumento para estabilizar renda e fluxo de caixa no campo
Por Redação
Diante de uma safra 2026/27 que começa sob maior atenção aos riscos climáticos, ampliar o acesso ao seguro rural volta ao centro da discussão sobre como proteger a renda e a capacidade financeira do produtor. A avaliação foi apresentada durante o videocast Papo Seguro, promovido pela Brasilseg e pelo Banco do Brasil, que reuniu especialistas para discutir os possíveis efeitos do El Niño sobre o agronegócio e as estratégias para enfrentar um cenário de maior volatilidade.
No debate, Paulo Hora, superintendente executivo de Resseguro e Agro da Brasilseg, defendeu que o seguro rural seja tratado como parte de uma estratégia mais ampla de gestão de riscos e resiliência climática, e não como uma proteção isolada. Segundo ele, além de reduzir os impactos sobre o produtor, o instrumento contribui para dar maior estabilidade financeira às cadeias produtivas.
“Do ponto de vista mais micro do indivíduo, ele é um instrumento de estabilização de renda, ele é um instrumento que estabiliza fluxo de caixa”, afirmou Hora. Ele explicou que, mesmo depois de planejamento, manejo e investimentos em tecnologia, permanece uma parcela do risco que o produtor não consegue controlar, principalmente aquela relacionada ao clima e ao mercado. É nesse risco residual que entram seguradoras e resseguradoras.
Alexandre Mendonça de Barros, sócio-consultor da MB Agro, também defendeu o seguro como componente da estratégia econômica da propriedade. Para ele, países que conseguiram construir agriculturas mais resilientes desenvolveram programas de seguro e mecanismos permanentes de proteção do risco.
“Eu sou um ferrenho defensor do seguro pelo simples fato que você olha pro mundo, as agriculturas que têm mostrado resiliência, consistência, todas elas desenvolveram um programa de seguro”, afirmou.
Na avaliação do economista, o produtor precisa combinar agronomia, tecnologia, gestão comercial, proteção de preços e seguro. O risco climático permanece mesmo quando as demais decisões são tomadas corretamente. Nesse caso, o seguro funciona como instrumento financeiro para proteger renda e reduzir os impactos das oscilações características da atividade agropecuária.
Mais produtores segurados podem reduzir custo
Um dos pontos centrais levantados por Hora foi a necessidade de ampliar a base de produtores protegidos. Segundo o executivo, quanto maior a presença do seguro agrícola entre regiões e diferentes cadeias produtivas, maior a dispersão do risco e melhores as condições para reduzir o custo médio da proteção.
“A tendência é que, se o seguro rural e o seguro agrícola em especial se tornam cada vez mais massificados no país, esse próprio compartilhamento de risco faz com que o custo médio da apólice de seguro reduza individualmente”, explicou.
Hora acrescentou que uma contratação concentrada em poucas culturas ou regiões tende a aumentar o custo médio, enquanto a ampliação da base segurada fortalece o mutualismo e pode tornar a proteção mais acessível, especialmente para pequenos e médios produtores.
Esse público, segundo ele, enfrenta uma vulnerabilidade maior porque dispõe de menos alternativas para administrar os riscos financeiros. Grandes produtores costumam ter maior acesso a mercado de capitais, derivativos e diversificação da produção, enquanto pequenos e médios dependem mais de instrumentos vinculados à política agrícola e ao crédito.
O preço do seguro, porém, não depende apenas do tamanho da propriedade. Região, probabilidade de perda, clima, solo, relevo, histórico de uso da área e produtividade são algumas das variáveis consideradas na avaliação do risco. Com maior disponibilidade de dados e tecnologia, as seguradoras conseguem avançar na precificação em nível de propriedade e até de talhão.
Para o produtor, Hora também chamou atenção para a necessidade de conhecer o seguro contratado. Coberturas, riscos incluídos e funcionamento da indenização precisam ser avaliados para que a apólice corresponda à realidade do sistema produtivo.
Boa gestão da propriedade pode chegar ao preço do seguro
Outro ponto discutido foi a possibilidade de aproximar cada vez mais o preço da apólice do risco efetivamente apresentado pela propriedade. Segundo Hora, áreas com melhores práticas de manejo tendem a apresentar menor vulnerabilidade e, à medida que essas informações podem ser medidas e incorporadas à análise, abre-se espaço para uma precificação mais individualizada.
A Brasilseg trabalha com a Embrapa em iniciativas relacionadas ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático e aos níveis de manejo. De acordo com Hora, propriedades classificadas nos níveis mais elevados, com práticas como cobertura do solo e manejo construído ao longo do tempo, apresentam maior resiliência diante de eventos como a estiagem. “Esse produtor que tem boas práticas, ele vai ter um seguro mais acessível, com certeza, e uma cobertura muito mais próxima do risco dele”, disse o executivo.
Mendonça de Barros reforçou que a disponibilidade de informações sobre cada propriedade pode diminuir a distância entre a percepção de risco do produtor e a avaliação feita pela seguradora. Com dados mais precisos sobre manejo e histórico produtivo, o mercado consegue estimar melhor a probabilidade de perda e, consequentemente, calcular de forma mais adequada o custo da proteção.
“Na medida que você vai tendo informação, que eu vou mostrando que o meu sistema, que eu tenho dados, em tese, vou ter um cálculo do que é efetivamente o meu risco para eu precificar”, afirmou. Para ele, o avanço desse processo pode beneficiar o próprio produtor, porque uma avaliação mais precisa tende a reduzir o custo de proteger riscos menores.
A discussão ocorre justamente quando o produtor entra em uma nova safra diante da possibilidade de maior irregularidade climática. Durante o encontro, especialistas apontaram perspectivas distintas entre as regiões, com maior volume de chuvas no Sul e possibilidade de condições mais secas em áreas do Centro-Norte e Nordeste.
Para Hora, o seguro deve entrar depois das medidas que o próprio produtor consegue adotar para reduzir sua exposição. Planejamento, tecnologia e manejo diminuem a vulnerabilidade, mas não eliminam completamente o risco climático. A parcela que permanece é justamente aquela que pode ser transferida ao mercado segurador.
Essa visão também foi defendida pelo pesquisador Santiago Vianna Cuadra, da Embrapa Agricultura Digital. Ao tratar das decisões para a nova safra, ele recomendou que o produtor siga as orientações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático e, quando possível, contrate seguro para proteger o capital empregado e o crédito de custeio.