28 de August de 2026
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Da lavoura ao silo: corretor ganha papel estratégico para evitar lacunas na proteção dos grãos

  • 28/ agosto / 2026

Produtor precisa entender onde termina a cobertura da lavoura e quais riscos surgem depois da colheita, e o corretor tem papel estratégico na identificação das coberturas necessárias para proteger estoques, estruturas, equipamentos e grãos armazenados

Por Tany Souza

A colheita encerra uma etapa da produção agrícola, mas não a exposição do produtor ao risco. Quando o grão deixa a lavoura e segue para silos, armazéns ou unidades de beneficiamento, mudam os riscos, os bens expostos e as coberturas necessárias. É nessa transição que a corretagem de seguros assume um papel importante para identificar possíveis lacunas entre a proteção contratada para a cultura e aquela necessária depois da colheita.

A questão ganha dimensão diante do crescimento da produção brasileira e da pressão sobre a infraestrutura de armazenagem. A capacidade de armazenamento do país chegou a 233,8 milhões de toneladas no segundo semestre de 2025, segundo o IBGE, enquanto as projeções para a produção nacional de grãos permanecem acima desse volume.

A diferença entre os dois indicadores não representa, isoladamente, um déficit equivalente de armazenagem, já que a capacidade estática pode ser utilizada mais de uma vez ao longo do ano. Ainda assim, estimativas da Cogo Inteligência em Agronegócio apontam que aproximadamente 135 milhões de toneladas podem ficar sem armazenagem adequada e que seriam necessários cerca de R$ 148 bilhões em investimentos para ampliar a capacidade do país.

Para o corretor, esse cenário amplia a necessidade de entender o caminho percorrido pelo produto e identificar quais exposições estão efetivamente contempladas nas apólices.

David Martin, coordenador da Comissão Rural do Sincor-SP, avalia que ainda existe desconhecimento sobre os limites da cobertura contratada para a lavoura. Segundo ele, de maneira geral, depois da colheita é necessário avaliar uma proteção específica para a estrutura onde o produto será armazenado e também para o seu conteúdo.

“Então são apólices diferentes, são contratos diferentes e que eles não se conversam no sentido de um ser complemento, de um já ligar no outro, eles podem ser complementares mas com apólices diferentes.”

Essa separação exige atenção também ao que efetivamente foi incluído na contratação. Martin explica que barracões, silos, máquinas, equipamentos e conteúdo podem demandar coberturas específicas e que um dos problemas aparece quando o segurado acredita que determinado bem está protegido sem que tenha sido declarado na apólice.

Estoque médio pode esconder a exposição real

Na avaliação de Raphael Juliace Magalhães, superintendente Agro da Marsh Risk, o ponto de partida para estruturar a proteção deve ser a análise da operação. Além das edificações, uma unidade pode reunir silos, secadores, sistemas elétricos e de automação, máquinas, equipamentos e o próprio estoque de grãos. Também é preciso considerar o impacto que a paralisação de ativos críticos pode provocar sobre recebimento, expedição e continuidade da operação.

“O papel do corretor, porém, não deve se limitar à contratação da apólice. É necessário avaliar os valores efetivamente expostos, os picos de estoque ao longo da safra, limites e sublimites, franquias, riscos cobertos, medidas de prevenção e proteção, criticidade dos equipamentos e o potencial impacto de uma interrupção da operação.”

Um dos pontos de atenção é justamente a variação do estoque ao longo do ano. Uma contratação baseada no valor médio pode deixar a operação com limite insuficiente no período de maior concentração de produto. Magalhães alerta ainda para a necessidade de verificar enquadramento de máquinas e equipamentos, franquias, exclusões e eventuais perdas decorrentes da interrupção das atividades.

Talita Ferrari, diretora de Agronegócio da Wiz Corporate, chama atenção para o mesmo problema. Para ela, analisar apenas o silo como patrimônio deixa de fora parte relevante da exposição, que envolve instalação, equipamentos, operação e o valor dos produtos concentrados na unidade. “O seguro não pode ser calculado pela média da operação. Ele precisa considerar a exposição máxima.”

Segundo Ferrari, se uma unidade pode concentrar R$ 100 milhões em grãos em determinado período, uma importância segurada baseada em um estoque médio muito inferior pode não responder à exposição existente justamente no momento de maior concentração. Por isso, a análise deve acompanhar entrada e saída dos produtos, capacidade da unidade, commodities armazenadas e oscilação dos preços.

“A operação que cresceu, aumentou a capacidade de armazenagem ou passou a reter mais produto não pode continuar com o mesmo programa de seguros apenas porque a apólice foi renovada.”

Prevenção também entra na negociação com as seguradoras

O aumento da utilização das estruturas de armazenagem também coloca a prevenção no centro da análise do risco. Gustavo Bentes, presidente do Sincor-MG, destaca incêndio e explosão entre as principais exposições, especialmente pela presença de poeira de grãos em suspensão associada ao atrito mecânico ou a fontes de ignição. “Sensores de temperatura, monitoramento de umidade, sistemas de exaustão e manutenção dos equipamentos ajudam a reduzir riscos como autocombustão, proliferação de fungos e interrupções provocadas por falhas elétricas ou mecânicas.”

Ferrari ressalta, porém, que a presença de tecnologia não gera automaticamente uma redução no preço do seguro. O mercado avalia o conjunto da operação, e os recursos de prevenção podem melhorar a qualidade do risco apresentado à seguradora.

“Uma operação moderna, com controles efetivos e boa gestão, tende a ser mais compreensível e mais atrativa para o mercado segurador. Isso pode ajudar na aceitação e, dependendo do caso, gerar melhores condições de taxa, franquia, limites ou cobertura. Mas cada risco precisa ser analisado individualmente.”

Outro ponto de atenção surge quando o produto deixa a propriedade e segue para cooperativas, cerealistas ou armazéns de terceiros. Magalhães explica que, nas operações abrangidas pela legislação aplicável, o depositário tem responsabilidade pela guarda, conservação e entrega dos produtos, mas isso não significa que o produtor deva presumir que toda a exposição esteja segurada. É necessário verificar contrato, apólice, riscos cobertos, limites e compatibilidade entre a proteção existente e o valor efetivamente armazenado.

Para a corretagem, portanto, acompanhar a produção depois da colheita significa mapear uma exposição que muda conforme o grão avança pela cadeia. Martin lembra que contratar o seguro agrícola não garante, por si só, a proteção do produto armazenado.

Na avaliação de Ferrari, parte do desafio ainda está na própria percepção do risco pelo produtor e na necessidade de dimensionar o impacto financeiro de uma perda relevante. A atuação da corretora passa, então, por traduzir essa exposição e levá-la ao mercado segurador de maneira adequada.

“Quando isso é bem-feito, a discussão deixa de ser simplesmente ‘quanto custa o seguro?’ e passa a ser ‘qual perda eu consigo suportar e qual risco faz sentido transferir?’.”