10 de August de 2026
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Debate do agro traz seguro rural como peça principal para dar previsibilidade ao produtor

  • 10/ agosto / 2026

No 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, lideranças defenderam avanços na gestão de riscos, no crédito e em políticas de Estado para sustentar a competitividade do campo

Por Tany Souza

A ampliação do seguro rural voltou ao centro das discussões sobre o futuro do agronegócio brasileiro durante o 25º Congresso Brasileiro do Agronegócio, que acontece nesta segunda-feira (10), em São Paulo, pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em parceria com a B3. Em um ambiente marcado por crédito mais caro, pressão sobre os custos de produção, instabilidade climática e tensões no comércio internacional, representantes do setor defenderam maior previsibilidade para o produtor e uma política de gestão de riscos capaz de acompanhar a dimensão da agricultura brasileira.

O debate ganhou força especialmente diante da possibilidade de novos eventos climáticos adversos. A restrição da cobertura securitária foi apontada como uma das fragilidades que precisam ser enfrentadas para preservar a capacidade de produção e investimento dos agricultores. O tema apareceu nas falas de parlamentares, representantes do governo e lideranças do setor, que relacionaram seguro, crédito e sustentabilidade financeira da atividade.

Para o presidente da ABAG, Ingo Plöger, o próximo ciclo do agronegócio exige uma agenda capaz de integrar campo e indústria e ampliar a capacidade de inovação do setor. Na abertura do congresso, ele defendeu uma visão de longo prazo para transformar a força produtiva do agro em maior protagonismo econômico.

Segundo Plöger, o Brasil desenvolveu uma agricultura tropical capaz de produzir em diferentes regiões e ciclos, mas precisa avançar na transformação dessa capacidade em liderança. Ele também defendeu maior integração entre agro e indústria, e a construção de uma agenda que contemple produtores de diferentes portes, com foco em previsibilidade, inovação e empreendedorismo.

Crédito e mercado de capitais ampliam alternativas ao produtor

A B3 apresentou durante o congresso o avanço dos instrumentos do mercado de capitais voltados ao financiamento e à gestão de riscos do agronegócio. Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos da B3, destacou o peso econômico do setor e o papel da bolsa na aproximação entre produtores, empresas e investidores.

A instituição também atua na oferta de instrumentos de proteção de preços, como contratos futuros de boi gordo e milho. Para Masagão, ampliar o uso desses mecanismos pode ajudar o produtor a administrar parte da exposição às oscilações do mercado. A B3 também busca ampliar a formação de preços no mercado doméstico para produtos em que o Brasil tem forte participação internacional, como soja, café, açúcar e algodão.

A gestão de riscos foi apresentada como uma frente complementar ao financiamento. Para o produtor rural, a combinação entre crédito, proteção de preços e seguro pode reduzir a exposição financeira da atividade e dar maior previsibilidade às decisões de produção.

São Paulo aponta dificuldade de crédito e seguro

O secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Geraldo Melo Filho, afirmou que o momento combina dificuldades internas e externas para o produtor. Segundo ele, o estado concentra parcela relevante da atividade agropecuária brasileira e também funciona como importante estrutura logística para a produção nacional.

Melo Filho chamou atenção para a dificuldade de acesso ao crédito e para a baixa cobertura do seguro rural. A preocupação ganha relevância diante do custo financeiro elevado e da necessidade de preservar a capacidade de investimento dos produtores.

O Plano Safra 2026/2027 disponibiliza R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, dos quais R$ 72,6 bilhões são destinados aos médios produtores enquadrados no Pronamp e R$ 452,5 bilhões aos demais produtores e cooperativas. Ainda assim, a discussão no congresso mostrou que o volume de crédito, isoladamente, não resolve a exposição do produtor aos riscos climáticos e de mercado.

FPA cobra avanço do seguro rural

Vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado federal Arnaldo Jardim colocou o seguro rural entre as medidas estratégicas para o futuro do setor. Ao tratar dos desafios que envolvem crédito, clima e competitividade, ele afirmou que o Congresso precisa avançar na criação de instrumentos capazes de oferecer maior segurança ao produtor.

Jardim também destacou a importância de ampliar o acesso ao mercado de capitais e melhorar as condições de financiamento. Para ele, a agenda do agronegócio precisa combinar mecanismos financeiros com políticas que reconheçam a capacidade do setor de contribuir para a segurança alimentar, a produção de energia e a economia de baixo carbono.

A senadora Tereza Cristina, presidente do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), também colocou a previsibilidade no centro da agenda. Para ela, o agronegócio precisa ser tratado como política de Estado, considerando o papel que o Brasil pode desempenhar no abastecimento mundial de alimentos.

Tereza Cristina citou o crescimento de 11,7% da agropecuária em 2025 e afirmou que o resultado não elimina os desafios enfrentados pelo produtor. A combinação entre tensões geopolíticas, dependência de fertilizantes importados, retração do crédito rural e riscos climáticos exige, segundo ela, medidas estruturantes.

A senadora chamou atenção especialmente para o seguro rural. Segundo Tereza Cristina, a cobertura atual é insuficiente diante da dimensão da produção brasileira e de uma possível intensificação dos eventos climáticos. Ela defendeu a aprovação de mudanças no programa de subvenção e afirmou que os recursos destinados ao seguro não deveriam ficar sujeitos a contingenciamentos.

A preocupação está relacionada à retração da cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Segundo levantamento do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV Agro, a área segurada pelo programa caiu de aproximadamente 13,45 milhões de hectares, em 2021, para cerca de 3,2 milhões de hectares em 2025. A redução ocorre apesar do aumento da exposição da produção aos riscos climáticos e reforça a necessidade de ampliar a previsibilidade dos recursos destinados à subvenção.

Governo destaca antecipação de riscos

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que discutir o futuro do agronegócio significa discutir o futuro do próprio Brasil. Para ele, cabe ao Estado criar condições para que o produtor possa ampliar sua capacidade produtiva, com instrumentos de crédito, regulação adequada e antecipação dos riscos.

O ministro destacou o Plano Safra 2026/2027, que soma R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, e afirmou que o monitoramento climático precisa permitir decisões antecipadas. O governo vem acompanhando as condições relacionadas ao El Niño e ampliando a capacidade de monitoramento meteorológico.

Na agenda internacional, André de Paula destacou a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros. O Ministério da Agricultura registrava 642 novos mercados internacionais abertos nos três primeiros anos e meio da atual gestão, com meta de chegar a 700. Em 2025, o agronegócio brasileiro alcançou US$ 169,2 bilhões em exportações.

Para o ministro, a integração entre agricultura e indústria também será determinante para ampliar a competitividade brasileira. A agroindústria, segundo ele, abre novas oportunidades de agregação de valor e diversificação da pauta exportadora.

Alckmin defende agenda de competitividade para o agro

No encerramento, o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, destacou a transformação da agricultura brasileira nas últimas décadas e os desafios para sustentar esse avanço.

Alckmin afirmou que o Brasil passou de importador de alimentos a uma das principais potências agrícolas e destacou que o país se aproxima da liderança mundial nas exportações de alimentos. Para ele, a reforma tributária, a ampliação da produção nacional de fertilizantes, o desenvolvimento dos biocombustíveis e a abertura de mercados são medidas que podem melhorar a competitividade do setor.

O vice-presidente também mencionou as dificuldades provocadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos e afirmou que o governo pretende manter as negociações para reduzir os impactos sobre as exportações brasileiras. Segundo ele, a estratégia inclui a busca de novos mercados e mecanismos de apoio às empresas afetadas.

Ao tratar da renegociação das dívidas rurais, Alckmin destacou a criação de um fundo garantidor como instrumento para facilitar a repactuação dos débitos. A medida se soma a uma agenda que, ao longo do congresso, mostrou uma preocupação recorrente: garantir que o produtor tenha acesso a crédito, mercado e instrumentos de proteção capazes de preservar sua capacidade de produzir mesmo diante de períodos de maior instabilidade.