6 de August de 2026
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Seguros incorporam ciência e dados para enfrentar o avanço dos riscos climáticos

  • 6/ agosto / 2026

Encontro promovido pela CNseg e FGV discutiu como conhecimento científico, inteligência de dados e modelagem de riscos podem fortalecer a proteção da infraestrutura, das cidades e do agronegócio diante do aumento dos eventos climáticos extremos

Por Tany Souza

Em continuidade aos debates iniciados durante a London Climate Action Week 2026, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e a Fundação Getulio Vargas (FGV) promoveram, na quarta-feira (5), um encontro para discutir como o conhecimento científico pode aprimorar a modelagem dos riscos climáticos no Brasil. O evento reuniu pesquisadores, representantes do mercado segurador, setor financeiro e formuladores de políticas públicas para debater o uso de dados e projeções climáticas no desenvolvimento de estratégias de prevenção, adaptação e proteção financeira.

Ao longo do encontro, especialistas discutiram temas como o papel dos seguros no financiamento da adaptação dos municípios, os impactos de um possível El Niño de forte intensidade, os efeitos da seca e das ondas de calor sobre o agronegócio, a segurança hídrica nas grandes cidades, as chuvas extremas em São Paulo, além de modelos econométricos e contribuições para a Plataforma AdaptaBrasil.

A diretora de Sustentabilidade da CNseg, Claudia Prates, apresentou as ferramentas desenvolvidas pela Confederação para apoiar as seguradoras na avaliação dos riscos climáticos. Entre elas estão o Hub de Inteligência Climática e o Radar dos Eventos Climáticos e do Setor Segurador, lançado durante a COP30.

Segundo ela, o estudo revela uma forte desigualdade na cobertura securitária entre as regiões do país. Enquanto Sul e Sudeste registram índices de proteção de aproximadamente 17%, o percentual cai para 2% no Nordeste e apenas 0,2% no Norte.

“O problema do Brasil é que temos uma disparidade regional enorme. O mutualismo acaba oferecendo um colchão, mas essa diferença entre as regiões precisa ser enfrentada”, afirmou.

Claudia informou que a CNseg prepara uma nova edição do levantamento, que passará a incorporar os impactos indiretos dos eventos climáticos extremos. Ela também destacou a ferramenta lançada durante a COP30, que permite consultar, por meio do CEP, a exposição de um endereço a riscos climáticos. Inicialmente voltada à ocorrência de alagamentos, a plataforma deverá incluir, em uma próxima etapa, informações sobre deslizamentos. “A ferramenta é pública e dá uma base para as seguradoras terem maior uniformidade na hora de subscrever. Assim como permite que a pessoa física consulte o risco do endereço e entenda melhor a exposição à qual está submetida”, explicou.

Segundo Thelma Krug, professora do Conselho Científico da Fapesp e integrante por mais de duas décadas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as mudanças climáticas impõem um desafio inédito ao mercado de seguros, que precisará rever os modelos tradicionais de avaliação e precificação de riscos. “A modelagem sempre foi construída olhando para o passado para tentar prever o futuro. Hoje, isso já não é suficiente. O histórico deixou de responder às transformações que estamos vivendo”, afirmou.

Thelma explica que a velocidade das mudanças climáticas exige uma abordagem mais criativa e capaz de incorporar fatores que vão além dos eventos extremos, como impactos sobre a infraestrutura e pressões socioeconômicas. Segundo ela, ainda não há cidades plenamente preparadas para enfrentar esse novo contexto, justamente pela dificuldade de antecipar a intensidade e a frequência dos fenômenos.

“O que acontece em São Paulo não acontece no Rio Grande do Sul ou na Amazônia. Cada região apresenta características climáticas próprias, com comportamentos distintos para ondas de calor, chuvas intensas e outros eventos extremos. Um único modelo dificilmente conseguirá capturar todas essas particularidades”, comentou.

Para Thelma, embora existam metodologias consolidadas para mensurar os efeitos das ações de mitigação das mudanças climáticas, o mesmo ainda não ocorre com as estratégias de adaptação. “Sabemos que o aumento da temperatura média global resultará em mais eventos extremos e maiores impactos socioeconômicos. O desafio é que as seguradoras ainda não sabem como modelar esse novo cenário, porque as mudanças estão acontecendo muito rapidamente. Os próprios cientistas estão impressionados com essa velocidade”, concluiu.