Área protegida pelo seguro rural subvencionado recua 77% em quatro anos
- 31/ julho / 2026
Cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural encolhe cerca de 11 milhões de hectares enquanto produtores iniciam o planejamento da safra 2026/27 sob risco de retorno do El Niño e crédito mais restritivo
Por Redação
A cobertura do seguro rural subvencionado pelo governo federal registrou forte retração nos últimos quatro anos. Dados da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras) mostram que a área atendida pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) caiu de quase 14 milhões de hectares em 2021 para apenas 3,2 milhões de hectares em 2025, uma redução de aproximadamente 77%.
A perda de cerca de 11 milhões de hectares protegidos ocorre justamente quando os produtores começam a estruturar a safra 2026/27 em um cenário marcado pela possibilidade de retorno do fenômeno El Niño, custos de produção ainda elevados, juros em patamar restritivo e maior seletividade na concessão de crédito rural.
Na avaliação da CNseg, esse contexto amplia a exposição do agronegócio aos riscos climáticos e financeiros. Sem a proteção do seguro rural, perdas provocadas por seca, excesso de chuvas, granizo ou outros eventos extremos podem comprometer não apenas a produtividade da safra, mas também o fluxo de caixa da propriedade, o pagamento do custeio e a capacidade de investimento dos produtores.
Para o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, ampliar a contratação do seguro rural representa uma estratégia capaz de reduzir os impactos econômicos das perdas climáticas para toda a cadeia do agronegócio, incluindo produtores, instituições financeiras e o próprio poder público.
Segundo ele, produtores segurados conseguem preservar sua capacidade de investimento e manter o acesso ao crédito mesmo após enfrentarem perdas na produção. Para Oliveira, o aumento da frequência dos eventos climáticos transformou a gestão de riscos em uma questão que extrapola a porteira das fazendas.
“Os eventos climáticos deixaram de ser episódios isolados para produzir efeitos sobre cadeias produtivas inteiras. Uma quebra de safra afeta o produtor, mas também alcança o crédito, a logística, a indústria e os investimentos. Por isso, o seguro rural ganha importância como mecanismo de proteção da atividade agropecuária e de mitigação dos impactos econômicos provocados por eventos climáticos extremos.”
Apesar da relevância da ferramenta, o executivo reconhece que o ambiente econômico dificulta a contratação das apólices. Margens mais estreitas e menor liquidez levam muitos produtores a adiarem esse investimento justamente quando o risco se torna maior. “É exatamente essa a situação onde ele mais deve buscar o seguro, porque ele já está numa situação apertada. Se ele perde uma safra, ou mesmo tem uma perda parcial relevante, aí sim é que as coisas vão ficar bem difíceis”, afirmou.
Seguro rural reduz impactos financeiros
Além de proteger a renda do produtor, a ampliação do seguro rural também contribui para reduzir custos futuros para o governo. Segundo Oliveira, produtores sem proteção acabam recorrendo, com maior frequência, a programas emergenciais de renegociação de dívidas após perdas provocadas por eventos climáticos.
“O problema é que essas dívidas, quando chegam para renegociação, são dívidas que já estão inadimplentes, que já criaram todos esses inconvenientes para o produtor rural e que estão com custo muito mais elevado do que estavam quando estavam adimplentes”, afirmou à CNN.
A CNseg destaca ainda que a gestão de riscos passou a ocupar posição central na análise de crédito realizada por bancos, cooperativas e demais instituições financeiras. Além dos indicadores econômicos, as instituições passaram a avaliar com maior rigor o histórico produtivo dos agricultores e as estratégias adotadas para reduzir a exposição aos riscos climáticos.
Na avaliação do presidente da entidade, ampliar a área segurada também tende a beneficiar todo o mercado ao reduzir o custo médio das apólices.
Segundo ele, quando a cobertura diminui, permanecem seguradas principalmente propriedades com maior exposição aos riscos, elevando o valor médio do seguro. Já uma base maior de produtores permite diluir os riscos entre diferentes perfis, tornando o sistema mais eficiente e reduzindo o custo médio das operações.
Eventos extremos reforçam necessidade de proteção
Outro fator que reforça a importância do seguro rural é o aumento da frequência dos eventos climáticos extremos registrados no país.
Segundo levantamento citado por Dyogo Oliveira, o Brasil registrava, no início da última década, uma média anual de aproximadamente 2.500 eventos climáticos. Nos cinco anos mais recentes, esse número subiu para cerca de 4.500 ocorrências por ano. “O que aconteceu no Rio Grande do Sul, o que está acontecendo de novo no Rio Grande do Sul esse ano, aconteceu em Minas, aconteceu em Santa Catarina, aconteceu em São Paulo, aconteceu em Pernambuco, aconteceu na Bahia”, disse.
Para ele, a repetição desses episódios em diferentes regiões do país evidencia que o risco climático deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte da realidade do agronegócio brasileiro, exigindo uma revisão das políticas de gestão de riscos.
Adaptação climática exige planejamento
A diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Maria Netto, também defende que adaptação climática e financiamento da produção passaram a caminhar de forma integrada.
“A adaptação hoje envolve crédito, infraestrutura, produção de alimentos e estabilidade econômica. Quanto mais preparados estiverem produtores, empresas e governos para administrar esses riscos, menores tendem a ser os impactos financeiros provocados pelos eventos extremos.”
Segundo ela, a construção de mecanismos permanentes de prevenção deve substituir a lógica de respostas emergenciais após os desastres. “Durante muito tempo, adaptação foi tratada como resposta a desastres. Hoje sabemos que ela precisa fazer parte das decisões de investimento antes que os eventos ocorram. Construir mecanismos que reduzam vulnerabilidades custa menos do que reconstruir depois das perdas.”
Com o possível retorno do El Niño na safra 2026/27 e a crescente incidência de eventos extremos, especialistas apontam que ampliar a cobertura do seguro rural deixa de ser apenas uma política de apoio ao produtor e passa a representar um instrumento estratégico para fortalecer a resiliência do agronegócio, preservar o acesso ao crédito e reduzir os impactos econômicos das mudanças climáticas.
Fonte: CNN Agro