21 de July de 2026
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Clima deixa de ser apenas fator de prejuízo e passa a orientar estratégias de gestão de risco no agronegócio

  • 21/ julho / 2026

Com a intensificação do El Niño e o aumento da variabilidade climática, especialista explica por que o uso estratégico de dados agrometeorológicos pode ajudar produtores, seguradoras e instituições financeiras a antecipar riscos e reduzir perdas

Por Redação

Com a intensificação do fenômeno El Niño prevista para os próximos meses e o aumento da variabilidade climática, especialistas apontam que o agronegócio precisa ampliar o uso de dados agrometeorológicos para antecipar riscos e orientar decisões antes que perdas ocorram. Mais do que monitorar eventos extremos, a análise climática vem ganhando espaço como ferramenta estratégica para planejamento da produção, definição de manejos e estruturação de operações financeiras e securitárias.

Segundo o especialista em agrometeorologia da Picsel, deeptech em inteligência de riscos no agronegócio, Dr. Rodolfo Armando A. Pereira, ainda é comum que o clima seja tratado apenas após a ocorrência de prejuízos, quando produtores, seguradoras e demais agentes da cadeia já lidam com os impactos de secas, excesso de chuvas ou outros eventos climáticos.

“Os dados climáticos precisam fazer parte da estratégia antes, durante e depois da safra. Quando isso não acontece, o setor trata o clima como um acontecimento, e não como uma variável que pode ser monitorada continuamente para apoiar decisões”, afirma.

Na avaliação do especialista, produtores, cooperativas, bancos, seguradoras e empresas do setor ainda têm espaço para evoluir na interpretação de variáveis climáticas, séries históricas e informações agrometeorológicas. Esses dados podem contribuir para prever riscos, melhorar decisões operacionais e estruturar mecanismos de proteção mais eficientes, desde a escolha de cultivares até a precificação de seguros agrícolas.

O momento também reforça essa discussão. O fenômeno El Niño já está estabelecido no Oceano Pacífico Equatorial e, segundo projeções do Centro de Previsão Climática da NOAA e do INMET, deve se intensificar nos próximos meses, podendo atingir forte intensidade durante a primavera austral de 2026. Há, inclusive, probabilidade relevante de um evento muito forte entre novembro e janeiro.

Para Rodolfo, esse tipo de informação tem valor para o planejamento da safra, mas exige interpretação técnica. “O erro está em transformar uma previsão climática em previsão de perdas. Os dados servem para qualificar decisões e reduzir incertezas, não para indicar que todos serão afetados da mesma forma.”

O próprio INMET destaca que episódios intensos de El Niño não produzem os mesmos efeitos em todas as regiões do país. Historicamente, o fenômeno tende a reduzir as chuvas no Norte e Nordeste e aumentar as precipitações no Sul, mas a intensidade dos impactos depende de fatores como tipo de solo, manejo agrícola e distribuição das chuvas ao longo da estação.

Segundo o especialista, essa leitura regionalizada é essencial para que o clima deixe de ser visto apenas como causa de prejuízos e passe a integrar a gestão de risco das propriedades e das empresas do setor.

“Quando os dados são bem interpretados, é possível identificar padrões, medir exposição, ajustar estratégias produtivas e reduzir vulnerabilidades antes que o problema aconteça. Essa é uma mudança importante para aumentar a resiliência do agronegócio diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes.”

Ferramentas como previsões sazonais, séries históricas e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) já estão disponíveis para apoiar esse processo, mas, segundo Rodolfo, ainda são subutilizadas quando ficam restritas a consultas pontuais, sem integração ao planejamento da atividade.