Webinário discute El Niño, acende alerta para o seguro rural e reforça importância da gestão de riscos no campo
- 3/ junho / 2026
Especialistas apontam aumento da irregularidade climática, riscos para as próximas safras e destacam o seguro rural como ferramenta essencial de proteção da produção agrícola
Por Tany Souza
A possível formação de um novo episódio de El Niño entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 voltou a acender o alerta para produtores, seguradoras e agentes do agronegócio. Os impactos do fenômeno climático sobre a produção agrícola brasileira foram debatidos durante o webinário “El Niño: Perspectivas e Impactos para a Produção Agrícola”, promovido pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural (OCSR/FGV Agro) e pela Meridiana, com apoio institucional do Instituto Clima e Sociedade (iCS), IRB Brasil RE e Instituto de Inovação em Seguros e Resseguros (IISR) da FGV.
O encontro reuniu os meteorologistas Luiz Renato Lazinski e Francisco de Assis Diniz, sob moderação de Gilson Martins, pesquisador do OCSR/FGV Agro e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), para discutir os possíveis reflexos do fenômeno sobre as próximas safras e os desafios para a gestão de riscos no agronegócio.
Mais do que uma discussão climática, o evento trouxe à tona um tema cada vez mais estratégico para o setor: o papel do seguro rural em um ambiente de crescente instabilidade meteorológica. Segundo os especialistas, a expectativa de um novo El Niño aumenta a preocupação com perdas produtivas, especialmente em regiões que historicamente sofrem com excesso de chuvas, geadas, granizo e períodos prolongados de irregularidade climática.
Durante o debate, Francisco de Assis Diniz destacou que o seguro rural tende a ganhar ainda mais relevância diante do cenário projetado. “Esse ano é um ano que o seguro rural deve ter muita demanda, exatamente devido essa alta irregularidade do clima”, afirmou.
Segundo o meteorologista, os produtores precisarão acompanhar de forma muito mais próxima as previsões de curto e médio prazo para reduzir riscos durante o plantio. “Os agricultores vão ter que acompanhar bastante essas previsões, previsão de uma semana, previsão de 10 dias, 15 dias, para ver se realmente já pode plantar ou não”, explicou.
Diniz alertou que a ocorrência de chuvas antecipadas pode induzir decisões equivocadas de plantio, como ocorreu em diversas regiões do Centro-Oeste e do Matopiba durante 2023. “Muita gente fez erro de manejo por isso, porque acreditaram nas chuvas de setembro, quando na realidade elas não estavam configuradas para permanecer”, observou.
Para Luiz Renato Lazinski, a agricultura continuará sendo uma atividade altamente dependente das condições climáticas. “A agricultura é uma indústria a céu aberto e o clima nós não controlamos. Não conseguimos fazer chover quando precisa, o que acaba sendo um fator fundamental para o sucesso ou não das lavouras”, afirmou.
Segundo ele, embora seja impossível controlar o clima, as informações meteorológicas permitem maior planejamento e ajudam os produtores a tomar decisões mais assertivas. “Hoje temos uma ideia de como podem se comportar as temperaturas e as precipitações, permitindo fazer um escalonamento do plantio”, explicou.
Lazinski destacou que os sinais do El Niño já começam a aparecer. Entre eles, a persistência das chuvas no Sul do país, temperaturas abaixo da média em maio e episódios frequentes de geadas no Paraná. “O El Niño já começou se mostrando”, afirmou.
De acordo com o especialista, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico deve ganhar intensidade a partir de agosto, influenciando tanto a safra de inverno quanto a safra de verão e até mesmo o início da safrinha de milho em 2027. As projeções indicam chuvas acima da média no Sul do Brasil durante a primavera e o verão, enquanto regiões do Centro-Oeste poderão enfrentar períodos de precipitação abaixo da normalidade. “Com muita chuva no El Niño, as precipitações vêm acompanhadas de ventos mais fortes e granizo”, alertou.
O debate também abordou os desafios do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). Segundo Diniz, embora o instrumento seja fundamental para orientar decisões, os produtores precisam complementar essas informações com o acompanhamento constante das previsões meteorológicas.
A recomendação dos especialistas é que o setor aproveite este momento para reforçar estratégias de gestão de riscos, incluindo planejamento produtivo, monitoramento climático e contratação de seguro rural. A avaliação é que o seguro agrícola não deve ser visto apenas como um instrumento de indenização, mas como uma ferramenta que oferece segurança para que o produtor possa investir em tecnologia, produtividade e sustentabilidade.
Em um cenário marcado por eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, a proteção financeira da produção tende a ganhar protagonismo. Com a possibilidade de um novo El Niño impactando as próximas safras, especialistas concordam que a combinação entre informação climática, planejamento e seguro rural será determinante para reduzir perdas e aumentar a resiliência do agronegócio brasileiro.