6 de May de 2026
Seguros

Webinar da FGV Agro e Meridiana expõe gargalos e caminhos para o seguro rural no Brasil

  • 5/ maio / 2026

Falta de previsibilidade, crédito caro e baixa cobertura marcam o debate sobre o futuro da proteção no campo

Por Tany Souza

Com a participação de diversos atores do setor de seguros, agronegócio, cooperativas, entre outros, aconteceu nesta manhã (05) o webinar realizado pela FGV Agro e Meridiana, sobre o tema “O Futuro do Seguro Rural no Brasil”, onde, no primeiro painel, foi discutido o que o setor espera como resposta da política pública.

Na abertura do evento online, Guilherme Bastos, coordenador da FGV Agro, lembrou que há hoje uma condicionalidade socioambiental para a contratação do seguro rural, mas ainda existe um desafio relevante em relação à previsibilidade. “O aumento do montante de recursos para o seguro rural no próximo ano, como pleiteado pela CNA, chegando a 4 bilhões de reais para o PSR, é fundamental”, afirmou.

Bastos também reforçou que “é preciso ter reservas para eventos climáticos extremos, por isso o Projeto de Lei 2951/2024, de autoria da senadora Tereza Cristina, faz todo sentido”.

Para Mônica Sodré, CEO da Meridiana, o seguro rural ganha ainda mais relevância diante das mudanças climáticas, que passam a representar risco direto aos negócios, especialmente em um país onde cerca de um terço do PIB está ligado ao agronegócio. “A segurança alimentar do Brasil e do mundo encontra-se comprometida diante da baixa cobertura e da proteção inadequada do setor. O Brasil está no epicentro dessa questão, dada a sua vulnerabilidade e exposição ao clima. O que falta hoje é uma legislação estrutural, e não pontual e socorrista, que seja capaz de prover previsibilidade ao país”, destacou.

A diretora executiva da iCS, Maria Netto, reforçou esse cenário. “A frequência e a intensidade das mudanças climáticas aumentam, e precisamos entender melhor como esses eventos impactam a economia. A discussão do seguro rural como instrumento econômico é essencial para trazer uma visão mais clara e estruturada, permitindo reduzir e gerir riscos, além de ampliar o acesso ao crédito e ao financiamento”, afirmou.

Glaucio Toyama, diretor de Soluções Agro do IRB Re, trouxe uma análise conjuntural do setor. “O mercado brasileiro de crédito rural passa por um cenário bastante complicado nos últimos anos. As margens dos produtores se apertaram de forma significativa, em alguns casos até negativa. As taxas de juros elevadas tornam a viabilidade do negócio cada vez mais restrita, e o mercado de seguros é pressionado, seja na redução de coberturas, seja na redução de taxas”, explicou.

Ele também destacou a necessidade de evolução dos produtos. Segundo Toyama, é fundamental avaliar se as soluções atuais estão aderentes às diferentes realidades do campo. “Temos pequenos e médios produtores, agricultura familiar e agricultura empresarial. Precisamos avançar com produtos mais aderentes não apenas para soja e milho, mas também para outros segmentos relevantes para o Brasil e para a sociedade rural”, pontuou.

A expectativa do setor em relação à política pública

Como mediador, Fabio Guerra, head de Pesquisa e Conhecimento da Meridiana, destacou os pontos centrais do debate. “O seguro rural é absolutamente estratégico, conectado à estabilidade econômica e a uma agenda de longo prazo que o Brasil precisa construir. Além disso, há a questão da segurança alimentar, não apenas para a população brasileira, mas para o mundo”, afirmou.

Ao ser questionado sobre as políticas públicas prioritárias, Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, enfatizou o papel do PSR como instrumento de previsibilidade orçamentária. “Hoje esse é o principal gargalo. A seguradora não consegue se organizar, o produtor não consegue contar com o contrato e não sabe se terá subvenção. Essa incerteza desorganiza toda a cadeia e dificulta a criação da cultura do seguro”, disse.

Para Silas Souza, gerente Agro do Sicredi, outro ponto relevante é a modernização do Proagro como complemento ao seguro rural. “Ele pode se manter como um mecanismo eficiente e complementar ao seguro privado, sobretudo para pequenos produtores, desde que seja mais aderente à realidade regional e ao perfil do produtor”, afirmou.

Os desafios do seguro rural no Brasil seguem como tema recorrente, segundo Paulo Hora, superintendente executivo de Negócios e Soluções Rurais da Brasilseg. “A grande discussão é como executar o que precisa ser feito para melhorar o mecanismo de proteção do agronegócio”, destacou.

Ele também trouxe exemplos internacionais e apontou um fator comum. “O seguro agrícola não cresce sem apoio governamental, sem uma estrutura robusta de dados, portfólio de precificação, padronização e operação de sinistros, além de fundos públicos para suportar eventos extremos. Esses mecanismos garantem que a oferta de seguros não seja interrompida e incentivam a participação das seguradoras”, explicou.

Já Diego Almeida, diretor do MAPA, destacou a importância de evoluir na análise de risco. “Hoje, muitas vezes, a seguradora trata riscos diferentes de forma semelhante, com base no zoneamento, que considera a média municipal. Isso torna o processo de subscrição e precificação mais limitado. Estamos avançando para incorporar variáveis de manejo, tornando essa análise mais precisa”, afirmou.

Ele acrescentou que esse movimento tende a melhorar a aderência das apólices. “Ao considerar variáveis de manejo, conseguimos uma subscrição mais ajustada à realidade do produtor, o que é um caminho importante para o desenvolvimento do seguro rural no país”, concluiu.