Projeções da CNseg mostram queda do seguro rural e expõem fragilidade do setor em 2026
- 15/ abril / 2026
Dependência de recursos públicos e incerteza na subvenção seguem limitando a expansão da cobertura no campo
Por Tany Souza
A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) revisou as projeções para o setor em 2026 e acendeu um alerta direto para o seguro rural. O segmento deve registrar retração próxima de 4%, consolidando uma tendência negativa puxada, principalmente, pela incerteza na liberação de recursos públicos para a subvenção ao prêmio.
Durante coletiva de imprensa, o presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, apontou que o problema não é conjuntural, é estrutural. A baixa execução orçamentária tem impacto direto na contratação de apólices. No último ano, o governo federal liberou pouco mais de R$ 500 milhões para o seguro rural, valor considerado insuficiente para sustentar o crescimento da cobertura. O efeito foi imediato e já aparece nas projeções.
A consequência prática é clara. Menos recursos significam menos prodFutores segurados e maior exposição ao risco climático. “Nós ainda não temos segurança dos valores que serão efetivamente liberados pelo governo. Então estamos estimando novamente para 2026 uma redução”, indicou a entidade. Em 2025, o segmento já havia registrado queda de 8,8%, reforçando o ciclo negativo.
Esse cenário reforça a leitura de que o seguro rural continua altamente dependente de decisões fiscais e orçamentárias, o que limita sua previsibilidade e compromete a evolução do mercado justamente em um momento de maior volatilidade climática e pressão sobre margens no campo.
A projeção para entidade para esse segmento é de queda de 3,9% em 2026, após um desempenho já negativo no ano anterior, em um contexto marcado também por maior percepção de risco climático. A subvenção ao prêmio, instrumento essencial para viabilizar a contratação, segue limitada, com previsão de cerca de R$ 1 bilhão no orçamento, o que tende a restringir a expansão da base segurada e a demanda por cobertura no campo.
O recado do setor é direto. Sem estabilidade no financiamento e sem prioridade na agenda econômica, o seguro rural continuará sendo o ponto fraco de um mercado que, no restante, segue avançando.
O crescimento de outros segmentos
Apesar desse desempenho negativo do seguro rural, o setor segurador como um todo mantém crescimento projetado. A CNseg estima avanço de 2,9% em 2026, desconsiderando o segmento de saúde. Com saúde incluída, o crescimento chega a 5,7%, sustentado principalmente por linhas mais dinâmicas e menos dependentes de políticas públicas.
Com desempenho positivo em linhas como automóveis, patrimonial e riscos financeiros, o ramo de danos e responsabilidades deve crescer 7,4% em 2026, ainda que menos que a projeção anterior, de 8,5%.
O seguro automóvel, por exemplo, deve avançar 7,1%, impulsionado pelo aumento na venda de veículos, especialmente híbridos e elétricos, além de programas de incentivo à renovação da frota.
No segmento habitacional, a expectativa é de crescimento de 12,8%, apoiado na expansão do crédito imobiliário, no déficit habitacional ainda elevado e no avanço de programas habitacionais públicos.
Já os seguros de pessoas (excluindo previdência) devem registrar alta de 7,4%, contra uma previsão anterior de 8,6%. Os destaques são os produtos de vida (+11,7%) e viagem (+12,2%), mesmo em um contexto de maior endividamento das famílias.
Por outro lado, a previdência aberta ainda deve apresentar retração (-4,4%), refletindo os impactos recentes de mudanças tributárias, especialmente a incidência de IOF sobre planos VGBL, que reduziu significativamente a captação do segmento.
O pano de fundo macroeconômico, no entanto, segue desafiador. Tensões geopolíticas, como conflitos no Golfo, podem pressionar o preço do petróleo, impactar a inflação e influenciar a trajetória da taxa de juros, com reflexos sobre renda, consumo e atividade econômica no segundo semestre.