Seguro rural ganha protagonismo em debate sobre crédito e resiliência do agro
- 8/ abril / 2026
Evento em Brasília reúne lideranças e reforça necessidade de integração entre financiamento e proteção no campo
Por Tany Souza
O fortalecimento do seguro rural como pilar estruturante da política agrícola brasileira esteve no centro do “Diálogo Setorial: Seguros, Crédito e Agronegócio”, realizado nesta quarta-feira na Confederação Nacional de Municípios (CNM), em Brasília. O encontro reuniu representantes do governo, do mercado segurador, entidades do agro e do sistema financeiro para discutir soluções que ampliem a proteção ao produtor e a sustentabilidade do crédito rural.
A abertura do debate destacou que o modelo atual, historicamente concentrado no crédito, já não responde à complexidade e ao aumento dos riscos enfrentados no campo, especialmente diante da intensificação de eventos climáticos e da volatilidade global. “O resultado dessa luta cotidiana do produtor rural com o clima, a solução que tem sido dada é endividar o produtor. Ele perde uma safra e o caminho é renegociar a dívida, carregando esse passivo para os anos seguintes”, afirmou o presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Dyogo Oliveira.
Segundo ele, esse modelo acaba sendo incorporado ao custo do crédito no país. “No fim do dia, o produtor rural paga essa conta, seja pelo custo das renegociações ou pelas perdas climáticas. Precisamos desenvolver o seguro rural com a mesma prioridade com que desenvolvemos o crédito rural ao longo das últimas décadas”, disse. Dyogo também chamou atenção para a retração da área segurada, que caiu de 13,7 milhões de hectares em 2021 para cerca de 3,2 milhões em 2025.
Na avaliação de Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), o cenário atual combina fatores internos e externos que pressionam o setor. “Estamos dentro de uma tempestade quase perfeita. O agro brasileiro é altamente dinâmico, com uma safra puxando a outra, e qualquer ruptura logística global impacta diretamente o país, que não trabalha com estoques reguladores relevantes”, destacou.
Ele defendeu a construção de soluções adaptadas à realidade da agricultura tropical. “O Brasil precisa de legislações e instrumentos que atendam essa dinâmica. A parceria com o setor de seguros é fundamental para pensar o futuro, não apenas reagir ao presente”, afirmou.
Na mesma linha, o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Tadeu Silva, reforçou que o avanço do crédito precisa estar necessariamente conectado à proteção. “De nada adianta estruturar crédito se, diante de uma quebra de safra, o produtor ficar vulnerável. É nesse ponto que o seguro deixa de ser opcional e passa a ser essencial para a sustentabilidade do sistema”, disse.
Direcionamento político e avanço do seguro rural
O debate ganhou tom mais estrutural com a participação da senadora Tereza Cristina, que defendeu a reformulação da política agrícola com o seguro rural no centro da estratégia. Antes de abordar propostas legislativas, a parlamentar fez um diagnóstico direto sobre o cenário atual. “O seguro precisa entrar na cultura do brasileiro. No agro, em vez de avançarmos, estamos andando para trás”, afirmou.
A senadora destacou que o país precisa avançar na criação de mecanismos mais robustos, como o fundo de catástrofe, e reduzir a dependência de soluções pontuais. “Não podemos continuar presos a discussões anuais do Plano Safra. Precisamos de uma política estruturante, e o seguro rural é um dos pilares dessa transformação”, disse.
Tereza Cristina também chamou atenção para o novo ambiente de risco global, que inclui conflitos internacionais e dependência de insumos estratégicos. “Hoje temos que discutir, inclusive, seguro de guerra e os impactos na logística. O Brasil precisa olhar para dentro e construir um plano estratégico para sua agricultura. O seguro rural é fundamental nesse processo e ainda é tratado como algo secundário, o que é uma miopia”, afirmou.
O encontro reforçou a percepção de que o avanço do agronegócio brasileiro passa, cada vez mais, pela integração entre crédito e seguro, em uma lógica de gestão de risco mais sofisticada e alinhada à realidade do setor.
Presidente da CNseg reforça a urgência de reformulação do seguro rural
Em coletiva de imprensa após o evento, o presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Dyogo Oliveira, aprofundou o diagnóstico sobre o cenário atual e reforçou que as transformações no agronegócio exigem, de forma imediata, uma evolução estrutural do seguro rural no Brasil.
Segundo ele, o avanço do financiamento privado no campo traz novas exigências e expõe fragilidades do modelo atual. “À medida que cresce a participação do financiamento privado, os investidores passam a executar dívidas em caso de inadimplência, o que se reflete no aumento das recuperações judiciais como mecanismo de reestruturação”, afirmou.
Dyogo destacou que esse ambiente é consequência direta das perdas recorrentes provocadas por eventos climáticos extremos, o que reforça a necessidade de ampliar a cobertura securitária no país. “Precisamos avançar para um modelo de seguro rural abrangente, que cubra a maior parte da área agrícola brasileira, e não apenas os cerca de 5% registrados no último ano”, disse.
O executivo chamou atenção para o retrocesso recente na cobertura. “Nos últimos cinco anos tivemos uma queda abrupta. Saímos de cerca de 13 milhões de hectares segurados para pouco mais de 3% da área plantada. Grande parte disso se deve à redução da subvenção e ao contingenciamento de recursos”, explicou.
Ele ressaltou que a instabilidade orçamentária impacta diretamente o funcionamento do mercado. “Produtores contrataram seguro contando com a subvenção e agora estão arcando com esses custos. Isso reduz a cobertura, eleva o custo do seguro e desestimula a entrada de novos players, como seguradoras e resseguradoras, diminuindo a concorrência. É um cenário desastroso”, afirmou.
Na comparação internacional, Dyogo reforçou o atraso brasileiro. “Nos Estados Unidos, cerca de 90% da área plantada tem seguro. Outros países também operam com níveis elevados de cobertura. O Brasil está muito distante desse padrão”, disse.
Ele também citou estudos recentes que dimensionam o impacto das mudanças climáticas. “Publicamos no ano passado uma análise que aponta cerca de R$ 60 bilhões em indenizações pagas por danos, em 2024, destes, 12% estão relacionados a eventos climáticos. É um valor extremamente relevante e que evidencia a urgência de avançarmos nesse tema”, destacou.
Ao abordar soluções, Dyogo enfatizou a importância do projeto de lei em tramitação no Congresso, de autoria da senadora Tereza Cristina. “O projeto traz elementos fundamentais, como o não contingenciamento do seguro rural, garantindo previsibilidade para o produtor, além da criação de um fundo estabilizador, que permitirá formar reservas para momentos de maior sinistralidade”, explicou.
Segundo ele, o fundo deve contar com participação tanto do setor privado quanto do governo. “A ideia é que seja composto por aportes das seguradoras e do próprio orçamento público, o que permitiria maior transparência e estabilidade ao sistema”, disse.
Apesar das propostas em discussão, o cenário atual ainda impõe desafios relevantes. Dyogo destacou que há, inclusive, passivos em aberto. “Hoje existe uma dívida do Tesouro Nacional de cerca de R$ 500 milhões com as seguradoras, o que agrava ainda mais a insegurança no sistema”, afirmou.
O executivo também apontou que o modelo vigente precisa ser revisto de forma mais ampla. “O que temos hoje é uma colcha de retalhos. O crédito rural foi estruturado ao longo do tempo com forte presença do setor público, mas esse modelo está mudando. Precisamos transmitir confiança aos investidores, mostrando que a produção está protegida, que há gestão de risco adequada”, disse.
Na avaliação dele, o seguro rural tem papel central nessa transição. “O investidor de mercado de capitais é mais paciente e pode contribuir para um financiamento mais estruturado do agro. Mas, para isso, é essencial que o risco esteja mitigado. O seguro é parte dessa solução”, afirmou.
Dyogo concluiu alertando para o momento delicado vivido pelo produtor. “O produtor rural está pressionado por todos os lados. É justamente nesse cenário que a proteção se torna ainda mais necessária. Estamos diante de uma oportunidade de construir um sistema em que todos ganham, mas a falta de avanço pode comprometer esse caminho”, finalizou.