31 de March de 2026
Exclusivo

Seguro rural ganha protagonismo diante da escalada de tensões internacionais

  • 31/ março / 2026

Conflito entre Irã e EUA amplia riscos ao agronegócio e impacta custos, logística e contratos no Brasil

Por Tany Souza

A escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos adiciona uma nova camada de risco ao agronegócio brasileiro, afetando desde o custo de produção até a dinâmica de exportações e a estrutura dos contratos de seguro rural e transporte. Em um cenário de incerteza crescente, especialistas apontam que o seguro rural ganha ainda mais relevância como instrumento de proteção diante de margens pressionadas e volatilidade global.

Ao abordar o papel do seguro rural em cenários de instabilidade, Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), reforça que a ferramenta deve ser encarada como parte central da estratégia do produtor, especialmente diante de um ambiente cada vez mais volátil. “Tratar o seguro rural como uma ferramenta estratégica na gestão de risco é fundamental, pois ele protege todo o sistema de produção agropecuária e florestal, independentemente de cenários macroeconômicos. Trata-se de um instrumento essencial para a sustentabilidade da atividade”, afirma.

O especialista destaca que, em momentos de maior turbulência, a dinâmica de mercado se torna mais complexa, impactando diretamente o planejamento do produtor. “Em contextos marcados por volatilidade de preços e incertezas quanto ao momento de aquisição de insumos e comercialização da produção, os mercados passam a operar sob novas condições, com “com impactos diretos sobre o custo de produção”, explica.

Segundo Toyama, é justamente nesse ambiente que o seguro rural ganha ainda mais relevância, ao atuar como um mecanismo de proteção frente a múltiplos riscos. “Eventos climáticos adversos, associados à instabilidade econômica, à escassez de insumos e à pressão sobre preços, tendem a reduzir significativamente as margens do produtor. O seguro rural, nesse contexto, oferece maior previsibilidade e evita que perdas adicionais comprometam a viabilidade econômica da atividade”.

Na mesma linha de atenção, o advogado Paulo Cremoneze, sócio do Machado e Cremoneze Advogados, destaca que o cenário ainda exige cautela, mas já traz riscos concretos para operações de comércio exterior. “Ainda é cedo para qualquer prognóstico seguro, mas ao menos em tese e levando em consideração a teoria do equilíbrio das probabilidades, é possível sim cogitar muitos dissabores aos embarques brasileiros de grãos e proteínas; então, há sim risco concreto e veraz de não cobertura para exportadores. E nem digo em eventuais lacunas. Digo sobre a aplicação literal e correta do contrato de seguro. A depender do dano não haverá cobertura por se tratar de risco excluído”.

Cremoneze também chama atenção para possíveis revisões contratuais diante de mudanças relevantes no cenário global. “Os preços de fretes e de prêmios poderão ser ajustados com base no conceito jurídico de que o contrato há de ser fielmente respeitado desde que mantidas as condições originais da contratação. A alteração substancial dessas condições por motivos extraordinários à vontade geral das partes contratante autoriza, legal e moralmente, revisões justas, tudo segundo os princípios da probabilidade e razoabilidade. Não acredito que isso ocorrerá, porém nos contratos em curso e para embarques iniciados. As alterações dar-se-ão aos embarques ainda por serem efetuados. A guerra é um dos melhores exemplos de força maior e a rigor é risco excluído do seguro de transporte”.

Impactos diretos na cadeia produtiva e nos custos do agro

O ponto mais sensível da crise está na logística internacional, especialmente no Estreito de Ormuz, rota estratégica para petróleo e insumos agrícolas. Qualquer interrupção pode desencadear um efeito dominó nos custos globais. Segundo Maria Luisa Franzotti, analista econômica e de geopolítica da Céleres, o impacto tende a ser imediato no mercado de fertilizantes. “O conflito terá um impacto imediato e severo no mercado de fertilizantes, com ênfase nos nitrogenados. O Irã responde por 10% das exportações globais de ureia, enquanto o Oriente Médio como um todo concentra 25% do fornecimento mundial”.

Para o Brasil, a dependência é relevante. Em 2025, Irã e países do Oriente Médio concentraram cerca de 35% das importações brasileiras de ureia, 17% dos fosfatados e 10% do cloreto de potássio. Os efeitos devem aparecer já nas negociações da safra 2026/27, pressionando margens tanto da soja quanto do milho safrinha, em um momento de maior disciplina financeira no campo.

Do lado da demanda, o alerta também é alto. O Irã se consolidou como um dos principais destinos do milho brasileiro, tendo liderado as importações em três dos últimos cinco anos. Em 2025, foram mais de 9 milhões de toneladas adquiridas. “A incerteza sobre demanda e condições logísticas de comércio com o Irã deve impactar a formação de preços ainda em 2026. Uma eventual interrupção nos embarques pode gerar represamento da oferta interna, elevar estoques e pressionar negativamente as cotações domésticas, sobretudo do milho”, alerta Enilson Nogueira, Coordenador de Estudos Econômicos da Céleres Consultoria.

Ele reforça que a substituição desse mercado não é simples. “Não vemos outro consumidor com o mesmo potencial de absorção no curto prazo. Se a exportação para o Irã for menor, é um fator de atenção relevante para toda a cadeia do milho”.

Os reflexos se espalham por outras cadeias. O Oriente Médio responde por 26% das exportações brasileiras de carne de frango e 6% da carne bovina, o que pode impactar a demanda por ração e, consequentemente, retroalimentar a pressão sobre o milho. Produtos como açúcar, soja, farelo de soja e celulose também têm exposição relevante à região.

Outro fator de risco envolve possíveis restrições comerciais dos Estados Unidos a parceiros do Irã, hipótese já mencionada pelo presidente Donald Trump. Caso avance, o movimento pode ampliar ainda mais a instabilidade no comércio internacional e criar novos pontos de tensão para o Brasil.

Mercado de seguros reage e endurece avaliação de riscos

No mercado de seguros e resseguros, a mudança de cenário já é clara. De acordo com Luiz Araripe, country manager da Gallagher no Brasil, o risco geopolítico deixou de ser exceção para se tornar parte estrutural da análise de risco. “O que observamos não é uma reação abrupta, mas uma mudança clara de postura e maior disciplina na aceitação de riscos. O risco geopolítico influencia diretamente as premissas de subscrição e os cenários de estresse utilizados por seguradoras e resseguradoras. Na prática, a precificação reflete uma maior cautela, sobretudo em riscos corporativos com exposição internacional e dependência de cadeias globais de suprimento”.

No Brasil, os impactos já começam a exigir ajustes. Rodrigo Protasio, CEO da Gallagher Retail no Brasil e especialista em grandes riscos, destaca que a volatilidade do petróleo pode pressionar toda a cadeia produtiva. “Toda essa volatilidade do preço do petróleo pode impactar custos de frete, preços de mercadorias e estoque (produtos acabados), além de que pode haver uma pressão sobre os custos de matéria-prima, devido a todo o impacto da guerra sobre as cadeias de suprimentos globais”, finaliza ele.