Seguro no agronegócio
- 9/ março / 2026
De despesa operacional a instrumento estratégico de crédito e governançao agro?

Camila Feriani
A visão do seguro como um custo inevitável ainda persiste em parte do agronegócio, mas já não reflete a realidade das operações mais estruturadas. Para empresas, cooperativas e grandes produtores, o seguro passou a desempenhar um papel estratégico, diretamente conectado ao acesso a crédito, à governança e à sustentabilidade financeira.
Instituições financeiras e investidores avaliam, cada vez mais, a capacidade de gestão de riscos das operações agroindustriais. Programas de seguros bem estruturados reduzem a volatilidade dos resultados, aumentam a previsibilidade de caixa e contribuem para melhores condições de financiamento. Em muitas operações de crédito rural, a existência de proteção securitária adequada passou a ser um elemento relevante na análise de risco realizada por bancos e cooperativas de crédito.
Os dados do próprio mercado mostram a relevância dessa ferramenta. Levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) aponta que, nos últimos anos, as seguradoras pagaram mais de R$ 20 bilhões em indenizações ao setor agropecuário brasileiro, valor que ajudou produtores a manter a atividade após perdas provocadas por eventos climáticos severos, como secas, geadas e excesso de chuvas.
Ao mesmo tempo, os números também revelam o tamanho do desafio de ampliar a cobertura. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária sobre o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) indicam que, em 2025, cerca de 3 milhões de hectares foram segurados com apoio do subsídio federal, número considerado baixo diante da dimensão da produção agrícola nacional.
Estudos do Observatório do Seguro Rural da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) reforçam que a área protegida ainda representa uma pequena parcela da área agricultável do país, o que mantém grande parte da produção exposta à volatilidade climática.
Além do aspecto financeiro, a gestão de riscos está diretamente relacionada às práticas de governança, compliance e ESG no campo. Empresas agroindustriais cada vez mais precisam demonstrar capacidade de enfrentar eventos adversos, preservar a continuidade do negócio e reduzir impactos ambientais e sociais decorrentes de crises produtivas. Nesse contexto, o seguro passa a integrar o conjunto de instrumentos que fortalecem a credibilidade das operações diante de parceiros comerciais, investidores e mercados internacionais.
Com isso, o papel do seguro se amplia de forma significativa. Ele deixa de atuar apenas no momento do sinistro e passa a fazer parte do planejamento estratégico das empresas, contribuindo para decisões de investimento, expansão e relacionamento com stakeholders. O corretor, por sua vez, assume uma função mais consultiva, participando da construção de programas de proteção alinhados ao perfil de risco e aos objetivos de longo prazo do negócio.
Outro fator que reforça essa mudança é o aumento da frequência de eventos climáticos extremos. Relatórios recentes de entidades do setor agrícola e segurador indicam que secas prolongadas, ondas de calor e irregularidade de chuvas têm se tornado mais comuns, elevando o grau de exposição financeira das atividades agropecuárias.
Diante desse cenário, empresas que estruturam programas de seguros mais robustos tendem a apresentar maior estabilidade de resultados e melhores condições de acesso ao crédito. No agronegócio contemporâneo, portanto, o seguro deixou de ser apenas uma despesa operacional. Ele se consolida como uma ferramenta estratégica de gestão, capaz de fortalecer a governança, ampliar a previsibilidade financeira e aumentar a resiliência de um setor cada vez mais exposto a riscos climáticos e de mercado.