29 de December de 2025
Colunista - Camila Feriani

O papel do Seguro Agrícola diante da nova tarifa Trump

  • 11/ agosto / 2025

Como o seguro rural pode proteger produtores em momentos de instabilidade internacional

Camila Feriani

A implementação de tarifas sobre produtos agrícolas por governos internacionais, como as chamadas “tarifas Trump”, pode trazer impactos significativos para a agricultura nacional. Tais medidas geralmente elevam os custos de exportação, reduzem a competitividade dos produtos nacionais no exterior e podem resultar em perdas financeiras para produtores rurais. Diante desse cenário, o Seguro Agrícola surge como uma ferramenta essencial para mitigar riscos, garantir estabilidade e promover a resiliência do setor.

As tarifas Trump referem-se às políticas comerciais adotadas pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que impuseram sobretaxas a produtos de diversos países, incluindo commodities agrícolas. O objetivo era proteger a indústria americana, mas a consequência foi uma série de retaliações comerciais e instabilidade no mercado global. Países afetados viram suas exportações reduzidas, preços internos caírem e margens de lucros diminuírem.

O efeito imediato das tarifas é a perda de mercados internacionais, levando a uma queda na demanda pelos produtos, excesso de oferta interna e consequente desvalorização dos preços. Agricultores ficam expostos a maiores riscos, especialmente os que dependem fortemente das exportações.

Entre os principais impactos, destacam-se a redução do preço pago ao produtor, estoque excedente e dificuldade de escoamento da produção, incerteza sobre receitas futuras e maior vulnerabilidade a fatores climáticos e de mercado.

O Seguro Agrícola é um instrumento financeiro de proteção que visa garantir ao produtor uma compensação em caso de perdas decorrentes de eventos imprevistos, sejam eles climáticos, sanitários ou econômicos.

Com o novo cenário de tarifas, esse seguro torna-se ainda mais importante, pois ajuda o agricultor a minimizar a exposição à volatilidade de preços, proteger a renda familiar e a continuidade da atividade rural, oferecer maior previsibilidade financeira em momentos de crise e facilitar o acesso a crédito junto a bancos e cooperativas.

O Seguro Agrícola diante das tarifas

O funcionamento do Seguro Agrícola pode variar conforme o país e o tipo de cultura, mas, em geral, ele oferece coberturas que vão desde perdas de produtividade até oscilações de preços de mercado. Com a imposição de tarifas, é possível que o produtor registre perdas tanto por queda de preços quanto por dificuldades de comercialização.

  • Seguro de Receita: Cobre a diferença entre a renda esperada e a renda efetivamente realizada, contemplando quedas de preço resultantes de eventos externos, como tarifas comerciais.
  • Seguro de Produtividade: Protege contra perdas de safra devido a fatores climáticos, garantindo ao menos uma renda mínima, mesmo que a comercialização sofra impactos negativos.
  • Seguro Multirrisco: Combina diferentes tipos de cobertura, abrangendo tanto riscos climáticos quanto flutuações de preço e renda.

Durante os anos de guerra comercial entre EUA e China, muitos agricultores americanos foram diretamente impactados pelas tarifas impostas pelos chineses sobre produtos como soja, milho e algodão. Para amenizar as perdas, o governo americano ampliou subsídios e reforçou programas de seguros agrícolas, que ofereceram suporte financeiro aos produtores, garantindo-lhes condições mínimas de sobrevivência econômica.

No Brasil, ainda que o contexto seja diferente, a criação de mecanismos semelhantes pode ser fundamental para proteger a agricultura, principalmente em regiões onde a exportação é o principal motor econômico. Em cenários de tarifas internacionais, a experiência americana mostrou que o seguro agrícola eficiente é capaz de evitar que crises temporárias causem o abandono da atividade rural em larga escala.

Desafios para a implementação do Seguro Agrícola no Brasil

Apesar dos benefícios, o seguro agrícola ainda enfrenta obstáculos no Brasil, como a baixa adesão devido ao custo dos prêmios, falta de informação e cultura de contratação, dificuldade de acesso em regiões mais remotas e subvenção governamental insuficiente.

Com a ameaça de novas tarifas, é fundamental que políticas públicas incentivem o acesso ao seguro agrícola, tornando-o mais acessível e abrangente. O fortalecimento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e o desenvolvimento de novos produtos voltados para a proteção de renda são caminhos promissores.

A principal vantagem do seguro agrícola em contextos de tarifa é a garantia de continuidade da produção. Ele permite que o agricultor faça planejamento financeiro, mantenha sua atividade diante de adversidades e preserve empregos no campo. Além disso, o seguro agrícola pode ser uma ferramenta estratégica para negociar melhores condições de crédito e investimento, reduz o risco sistêmico para toda a cadeira agrícola, protege contra efeitos combinados de crise de mercado e eventos climático, e incentiva à inovação e  à adoção de boas práticas agrícolas.

O futuro do Seguro Agrícola frente a tarifas comerciais

O cenário global tende à volatilidade, e as tarifas podem ser adotadas a qualquer momento por grandes potências. Diante disso, o seguro agrícola pode evoluir para oferecer coberturas mais amplas e customizadas, incluindo riscos de mercado, variações cambiais e até mesmo eventos geopolíticos.

As cooperativas, seguradoras e o governo podem atuar conjuntamente para desenvolver produtos inovadores que atendam à realidade de cada região e cultura agrícola. Novas tecnologias, como o uso de dados climáticos em tempo real, inteligência artificial para previsão de riscos e plataformas digitais de contratação, também deverão impulsionar a modernização do setor. A imposição de tarifas como as tarifas Trump traz desafios enormes para a agricultura nacional, exigindo dos produtores uma postura cada vez mais profissional e protegida. O seguro agrícola se apresenta como um aliado fundamental para garantir a sustentabilidade financeira, proteger a renda e manter a competitividade do setor frente a adversidades internacionais. Investir em políticas públicas, ampliar o acesso e aprimorar os produtos de seguro é o caminho para um campo mais resiliente e preparado para o futuro.